Está aqui

Artigos publicados

Coelhinho da Páscoa

Porque escrever sobre um coelhinho da páscoa? Resposta difícil, de longo e largo espectro, como alguns antibióticos. Tentarei responder, decifrando algumas das mais impressionantes histórias e narrativas que a propósito dos coelhinhos da Páscoa foram escritas e contadas. Desde tempos imemoráveis, quando ainda não se escrevia, quando ainda era a oralidade que contava, os coelhinhos da páscoa fazem parte do imaginário coletivo.

Quando a cinza substitui o pó, as coisas deixam de fazer sentido. As gotas de água não o transformam em barro, nem servem para colar ou construir algo novo. As gotas de água não chegam a tocar o pó do chão.

Extrato bancário

Olha, sabes quando nos conhecemos? Lembras-te desse momento? Eu era o funcionário do Banco e tu eras a menina doce e gentil de olhos azuis, que timidamente se aproximou do balcão para fazer um depósito em euros e trocar um cheque da segurança social, ou das Finanças, já não me lembro bem. Parece que no momento em que te via a minha gravata saltou do lugar e transformou-se numa serpente encantada que dançava ao som da música surda que tu emanavas dos teus olhos e da tua pele. Lembras-te?

Exame

A palavra em si assusta. Exame. Vem do latim examen, de onde vem a palavra enxame também. Dessa não falaremos hoje, se bem que um enxame de abelhas também me assusta, prefiro ficar pelo exame e pelos vários tipos de exames que existem, todos eles com algum grau de pânico, ansiedade e temor.

Escrevantar

Escrevia sempre ao levantar. Acordava cedinho, por volta das 6:15 da manhã, todos os dias. Era uma coisa que fazia parte de si, da sua rotina. Imaginava-se como um inventor. Inventava como um imaginador. Imaginava coisas que não existiam e escrevia-as entre as 6:30 e as 7:00 da manhã. Nessa meia hora tudo acontecia.

Canas sem açúcar

As negociações estavam num impasse. Não havia, naquele dia, qualquer possibilidade de avançarem. Eram quase cinco da manhã e não se avistava, ao fundo do túnel, nem com o raiar do Sol a possibilidade de uma decisão favorável ou, vá, equilibrada, a uma das partes. Parecia um verdadeiro Conselho Europeu em que decisões eram necessárias e os braços de ferro eram muitos, à mesa. Cada um defendia os seus interesses e nenhum chegava a lado nenhum pois o bolo era pequeno para dividir igual partes por todos.

Palpites

Estamos em tempo de Verão. Naquela época do ano em que tudo acalma. As coisas começam a funcionar a meio gás, muito meio gás. Talvez seja do calor. Talvez seja da ausência de pessoas. Este ano, devido ao tempo que no continente se faz sentir, as coisas não estarão tanto assim. Há menos gente nas praias ainda. Chove ora sim, ora não e não há temperatura suficiente nas águas do Algarve. Hoje, por exemplo, estão 17 graus na água. Não dá para molhar o pezinho, muito menos a canela e o joelho. Não me referirei ao resto. O peito certamente se ressentiria igualmente.

Dores de cabeça e caspa

Cheguei a casa hoje. Amanhã, quando estiverem a ler isto, será hoje, mas será o dia seguinte, logo aquilo que sabem amanhã, escrevi sem saber o que acontecerá até lá. Quando comecei este texto, tinha chegado a casa há três horas. O meu pai assou sardinhas, a minha mãe preparou uma salada. E eu senti-me feliz por estar em casa. Não tinha dores de cabeça, muito menos caspa. Daí o título do texto desta semana. Não tem relação especial ou privilegiada com nada. É simplesmente uma frase sem verbo. Há só o sujeito.

Paço a Passo

Andava tudo num virote. A mulher, o marido, os filhos, os primos, os empregados e as empregadas, o cão, o gato, as galinhas e o pato. Porquê ninguém sabia bem. Eu sei, mas não conto. Enquadremos o texto que aqui se sugere a leitura. A família morava num paço, que é uma casa grande, enorme neste caso. O Paço da família Passos era uma distinta moradia. Andava tudo numa azáfama. Era dia de festa. O seguinte. Aquele era da preparação. A mulher, o marido, os filhos, os primos, os empregados e as empregadas, o cão, o gato, as galinhas e o pato.

Início e fim

Mantenho-me sereno. Sempre sereno. Exceto quando perco a serenidade e me confundo comigo próprio e me iro comigo e sinto que os outros estão, eles, irados comigo. Estou calmo. E no meio desta calma que, mais do que aparente, é concreta. Escrevo estas linhas como quem fala em rima. Não me demoro no meio e faço com que cada verso rime com o próximo. Tudo isto para falar do início e do fim. Das coisas que começam e das que acabam sem dar sinal.

Páginas