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COTONETES

A vida não era a mesma coisa sem cotonetes. Aqueles pauzinhos de plástico ou madeira, cobertos de algodão nas pontas são e sempre serão imprescindíveis. Esta é uma teoria minha que ando a desenvolver há algum tempo e passo a explicar porquê e como me ocorreu. Primeiro, segredam-nos ao ouvido coisas maravilhosas. Fazem-nos tremer quando nos contam algo mais aterrorizador ou nos fazem cócegas nos ouvidos. São os cotonetes. Numa palavra só. Cotonete.

ESFEROVITE

Certo dia, uma recém-deslocada empresa do sector de escritório para o Brasil, decidiu pôr o seu recém-chegado empregado de encomendas, Pedro, português a reabastecer o armazém. Não era longa a lista, mas não foi fácil a execução da tarefa. A encomenda devia ser feita com a central de abastecimento do Maranhão e Pedro era um homem destemido nas suas tarefas, cumpridor, rápido e eficaz. Não era nada complicado, pensou. E assim não foi.

NUVENS

Andava com a cabeça nelas. Todos os dias. De um lado para o outro, a pensar nas nuvens. No meio delas, uma almofada fofa e onde se pode descansar. Era de descanso que precisava e nelas gostava de passar o tempo. Nas nuvens. Cabeça nas nuvens. Andava a divagar por elas quando saía de casa e caminhava nas ruas. Sentia-se o ar compactado.

PLANOS

Não faças planos. Não te maces a marcar coisas que certamente terão um final inusitado e não serão consequentes no seu final. Não faças planos. Não almejes alcançar o que não é para ti. Não tentes esticar a perna além do lençol nem compres um par de calças que te fiquem à meia canela, só porque a tua ideia desmedida te leva a impulsos que não consegues controlar. Não faças planos.

ALARMISMOS

No mundo atual, em que nada parece ser tão próximo de uma realidade virtual, imaginada por um criador de ficção científica, há núcleos ainda onde tal passa despercebido. Um desses sítios, desconhecido da esmagadora maioria de todos vós. Quase todos, se não todos, nunca ouviram falar da terra de que vos vou falar hoje. Chama-se Monte Novo dos Alarmes.

ESTRUTURA

Não fazia mal. Não faz mal. As coisas arranjam-se e resolvem-se por si próprias. Palavras de alento que lhe diziam para sossegar a pobre alma que se consumia num quarto escuro, pensando no que fora e no que era e no que poderia ser. Aventava uma série de hipóteses e nenhuma fazia sentido ou a soma de todas as hipóteses acabava por nunca dar certo. Nem aldrabando o meio, mantendo o resultado correto, não chegava lá. A pobre alma, continuava a ofegar, na sala escura. Projetava-se esta imagem no ecrã atrás da pessoa quem falava.

NÓMADA

O som do aspirador dissipava-se, com a distância. O som da água que corria num riacho longínquo tornava-se cada vez mais efémero e desaparecia ela também. Pedro voltava a si e ao comboio onde estava. A carruagem era tão antiga que os bancos eram em madeira já percorrida pelas traças. Nem o envernizado dos bancos as impossibilitara de viajarem também naquela carruagem. Pedro abria os olhos lentamente para observar, pela janela, o rio que o acompanhava e ao comboio que se deslizava, empurrado pela força do vapor.

FRIOZINHO

Parecia que estava no Pólo Norte e que à sua volta, tudo o que a rodeava era branco e frio. Neve. Muita neve e um vento gélido que atravessava a espinha e, chegado ao tutano, metia-se por ali acima e congelava o cérebro. Assim se sentia ela naquela manhã. Que briol, pensava. Tanto frio que faz nesta terra e tenho de sair do quentinho às poucas da manhã para me por a caminho do trabalho. Se houvesse um nevão jeitoso, talvez conseguisse ficar em casa por não conseguir sair à rua. Mas não havia nada disso.

SAUDADE

Um escrever sem pressas, uma palavra que se desenha como as nuvens se movimentam no céu, sem receio de não chegar a tempo. No céu azul, enquanto dura o dia, não há pressa, não há tempo. Na noite, com as estrelas, que se mantêm no mesmo lugar, vejamo-las seja de onde for, não há pressa, não há tempo.

TEORIA DA GRAVIDADE

Era muito grave. Essa era pelo menos a teoria que corria entre os que se atreviam a falar sobre o assunto. Tudo parecia uma longa história encoberta que caía a cada dia que passava, à medida que se aproximavam momentos decisivos, à medida que se consumiam os últimos troncos de lenha na salamandra que aquecia a casa naqueles dias de inverno. Não nevava. Nevara algumas vezes, poucas, nos últimos 100 anos. Antes disso não havia registo.

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