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A Lage

Reza a lenda que, num sítio muito distante, numa aldeia perdida do meio da Serra do Caldeirão, concelho de Almodôvar, freguesia de São Barnabé. A aldeia chamava-se Cerro da Ursa. Nessa aldeia, vivia um homem. Este homem levava uma vida simples. Cuidava de um pequeno rebanho e tratava das suas hortas. Nos montes ao lado viviam outras pessoas, mas é dele que reza a lenda. Não sei o nome do homem, sei só como ocupava os seus dias.

Cataratas

Lá bem atrás dos montes da Serra do Caldeirão, numa umbria, onde o sol deixava que a vegetação medrasse com mais força, vivia uma família de dois idosos. Tinham sido já novos há muito tempo, quando ainda só havia a telefonia sem fios e se correspondiam as pessoas, quem sabia escrever, através de aerogramas. Nenhum deles saiba ler ou escrever e agora, nestes dias, o que mais os impressionava, era a mudança que as coisas tinham tido.

Polémica

Em início de época festiva, o peru foi há dois dias, vulgo, Thanksgiving ou Dia de Ação de Graças, e o Natal a chegar, logo a seguir, para não se perder o ritmo, começa a azáfama das pessoas, a busca intensa de coisas, a desculpa de oferecer prendas. Tudo serve de desculpa para comprar qualquer coisa, gastar uns trocados e oferecer, dar, partilhar.

Intelectual de Biblioteca

Era irrelevante discutir com aquela pessoa. Não valia a pena estar a sustentar argumentos com ela pois a validação dos mesmos era interrompida, no seguimento de uma desconstrução dialética e empírica dos silogismos. Era uma realidade epistemológica de um discurso hermético raramente visto no seio dos intelectuais que naquela avenida habitavam.

Costureira

Uma mulher que media dois metros de altura. Gigante no meio dos pigmeus. Tão grande, tão grande que o marido cada vez que passeava com ela, chegava-lhe à cintura. Era uma aldeia enorme, cheia de gente pequena. Uma mulher que media dois metros de altura destoava de tudo o resto. Não se enquadrava, mas também há tanta coisa que não se enquadra e, no fim, após nos habituarmos, passa a ser normal. A vida é mesmo assim. Naquela aldeia ou em qualquer outra.

Frango assado com batatas fritas

Venha uma dose com batatas fritas aqui para a mesa e traga desse franguinho mais pequeno, à moda da Guia. Poderá haver assim loucuras tão grandes como a de Manuel Marafado, habitante da região do algarve, para lá trasladado do Alentejo, que todos os dias comia frango assado com batatas fritas. Era uma dieta pouco saudável, diziam os outros, mas ele não queria saber. Aquilo que lhe interessava verdadeiramente era poder comer frango assado com batatas fritas até ao fim dos seus dias.

Ã

Hoje, que não é hoje, apetece-me escrever um texto sobre algo muito específico. Não que aquilo que tenho escrito anteriormente não seja sobre algo muito específico, mas isto é mesmo sobre uma particularidade. É sobre o Ã. O Ã era uma personagem que fazia parte dos meus textos. Ele vivia numa terra longínqua, onde o céu já não via nuvens desde que os tempos se conheciam.

Leviatã

Há muitos, muitos, anos atrás, quando ainda não havia escrita, escrevia-se com os dedos nas paredes das grutas, coisas como animais e desenhos, pessoas, nuvens, sois. Enfim, escrevia-se só aquilo que se via. Não se sonhava muito nessa altura. As pessoas que sonhavam à noite, tinham mais pesadelos e os sonhos maus eram sobre objetos, monstros ou coisas correntes. Ninguém sonhava com filmes. Na época não havia filmes nem cinema. Nem livros havia. Já tinha dito acima que não havia escrita.

Vasilhas

A teoria predominante na época era a de contraciclo. Isto quer dizer que em vez de se encher as vasilhas, a ideia era esvaziá-las, derramá-las fazendo o maior barulho possível. Maria, mulher matulona, grande e cheia de energia, era a que trabalhava no negócio das vasilhas. Ela sabia o que fazia. Gritava vorazmente aos clientes e atraía a sua atenção. Arranjava assim clientes com fartura que compravam as vasilhas vazias. O reclamo funcionava. A gritaria sobrepunha-se à dos outros vendedores com iguais vasilhas.

Monte Novo

O Alentejo é uma região plana e longa na sua maioria, abruptamente interrompida por algumas montanhas a meio e no fim. No fim de cima e no fim de baixo. O Alentejo é cheio de cores, conforme o tempo em que o olhamos e a maneira como o encaramos. O Alentejo tem cidades, tem vilas, tem aldeias e tem montes, tem vidas e relações, gente igual e gente diferente.

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