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Movimento

Impressiono-me. A cada momento que avanço, no circuito dos caminhos por fazer, transformo-me em impressões, vivo cada salto como se a montanha russa em que nos apoiamos fosse um terreno seguro de betão ou alcatrão que não se move. Nessa estrada, nesse terreno contínuo, sem curvas. Imagine-se uma estrada que atravessa o deserto desta América.

Raspadinha

Era uma segunda-feira, um dia muito sisudo, tal como eu andava nessa semana. Ainda só essa manhã tinha começado e parecia já que durava há anos que iria correr mal até ao fim. Em casa, uma inundação que me pôs os cabelos em pé logo de manhã e os pés em água. Resolvido o problema, preparei o pequeno-almoço, ambicionando ter um momento sossegado, só para mim, dividido entre a torrada, os ovos e o sumo de laranja, seguido do café. Era um excelente pensamento. Era, mas não foi. E não se concretizou por duas razões muito simples. Por um lado, pus as torradas na torradeira e fui cortar as unhas.

Fado

É neste tom magoado que falarei de fado. É no choro desta guitarra que a voz do fadista chorará as sílabas e contará o sofrimento, que as vozes das mulheres e dos homens se tornarão imortais através do som que ecoará nos ouvidos de todos nós, portugueses ou não.

É no dia em que o fado nasceu que a primeira voz, ainda tímida, entoou os primeiros acordes. A guitarra portuguesa acordava e adormecia, entusiasmava-se e desfalecia. A guitarra acompanhava a voz em perfeita sintonia. Assim é desde o primeiro dia e assim será até ao último.

Marmita

Se na semana passada escrevi sobre o mar, esta semana é tempo de falar da marmita. Pequeno objeto que pode assumir formas tão diversas, do arredondado ao retangular, é algo em que não pensamos muito. Ninguém teve tempo ou quis, ainda dissertar sobre a marmita. A ideia de ter falado do mar na semana passada levou-me a filosofar, indiscriminadamente, sobre a marmita.

O mar

Olho o mar e vejo nele as lágrimas que deito, quando me sento no beiral, quando acabo as palavras e lanço um suspiro ao ar que me rodeia. Olho o mar e vejo nele a minha alma. Vejo no azul sereno os dias que me correm bem e no mar revolto a angústia e a fúria interior. Não tenho os olhos azuis, por isso não se refletem neles as cores das águas do oceano.

O unicórnio que falava a rimar

As palavras, quando juntam as letras e se formam no ar, são invisíveis. Pairam no ar até que alguém lhes lance as orelhas e as apanhe. Aí transformam-se numa coisa com sentido e causam as mais estranhas sensações ou emoções. Assim era no planeta dos unicórnios. Nem sempre é assim no nosso. Umas vezes ouvimos e damos significado, outras vezes, não ouvimos ou não queremos ouvir. Ah, tantas vezes é assim. Tantas vezes as palavras têm efeitos nocivos e tantas vezes têm efeitos deslumbrantes. Podem ser palavras de ódio e palavras de amor. Podem ser palavras secas e palavras húmidas.

A vida

A vida é um pedaço de terreno abandonado que não sabe bem a quem pertence e não tem marcos. A vida transforma-se num lamaçal quando chove e em terreno ardente nos dias de mais calor. Não contemplemos tanto os efeitos nefastos dos dias em que nos corre menos bem, mas optemos por torná-la vívida e alegre, naqueles dias em que o terreno nem é um lamaçal nem se encontra em chamas.

O lencinho

Assoava-se com ele. Tinha um lencinho que andava sempre no bolso. O lencinho era todo branco e tinha, num dos cantos, uma letra gravada. A letra A estava gravada em tons de azul, como gostava a dona do lencinho. Não é comum haver uma relação tão íntima entre um lenço e a sua dona, mas esta era. Tão próximos eram a dona e o seu lenço que a primeira dormia com o segundo e só se separava dele quando o punha a lavar. Isso acontece com regular frequência. Aconteceu assim, durante tempos e tempos seguidos, até ao último dia antes do desaparecimento do lencinho.

OPORTUNIDADES

Coisa que não faltava eram oportunidades. Coisa que perdurava no tempo e era falada nos corredores eram oportunidades. Oportunidades de mudar de vida, oportunidades de emprego, oportunidades de carreira, oportunidades de não fazer nada, janela de oportunidades. Tantas, tantas.

COTONETES

A vida não era a mesma coisa sem cotonetes. Aqueles pauzinhos de plástico ou madeira, cobertos de algodão nas pontas são e sempre serão imprescindíveis. Esta é uma teoria minha que ando a desenvolver há algum tempo e passo a explicar porquê e como me ocorreu. Primeiro, segredam-nos ao ouvido coisas maravilhosas. Fazem-nos tremer quando nos contam algo mais aterrorizador ou nos fazem cócegas nos ouvidos. São os cotonetes. Numa palavra só. Cotonete.

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