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Aos pulos e aos saltos

Tinha a inocência de uma criança, embora tivesse os seus oitenta anos. Esta é a narração da vida do homem que pulava e saltava mais do que qualquer pessoa em qualquer lugar do mundo.

A encomenda

Sentado à porteira da casa, olhar fixado no fundo da rua, esperava algo. E esse algo era uma encomenda. Tinha encomendado uma encomenda e esperava ansiosamente pela sua chegada como uma criança espera pelas prendas de Natal.

Cá ou lá?

Marisela Archeira tinha cara de poucos amigos e um feitio como havia poucos. A senhora destacava-se na comunidade onde residia por ser a mais rígida das mulheres. Daí teria surgido a sua alcunha Archeira, isto porque atirava e acertava a direito!

Marisela Archeira tinha nascido de uma família de nome, rica e com propriedades. Mas Archeira não era do tipo emproado que ficava usando vestidos de fole e não se preocupava com o bem estar dos seus bens. E bens tinha em género, espécie e numerário.

Marisela Archeira tinha vacas, cabras e ovelhas. Tinha galinhas, coelhos e fracas.

Outros tempos

Pirilimpimpau era um sítio no imaginário das pessoas que lá viviam, seja lá o que isso significa. Os habitantes de Pirilimpimpau eram os Pirilimpompeiros e tinham a particularidade de viver num lugar em que só se podia entrar e sair uma vez por ano, exatamente no mesmo dia, 13 de abril, que por acaso até é hoje.

Três peras

As palavras-chave são a coisa que nos ajuda a chegar a algum lugar, sem passar por caminhos tortuosos. Tantas vezes somos confrontados com situações em que aquilo que procuramos dizer ou transmitir não sai da forma como queremos. Isto pode ser um problema e é assim tantas vezes.

Entropias

Ora, eu naquele sábado entro em Pias, pela entrada que vem do lado da Nacional 2, chego a um café e peço um copo do tinto, daquele do bom dali da terra. Não se tratou de uma grandeza termodinâmica que mensura o grau de irreversibilidade de um sistema, mas sim da minha vontade insuperável em beber um copo daquele tinto de Pias e aproveitar um bom de um queijinho de Serpa. Dei a chave aos meus companheiros de viagem e joguei-me ao copo, mastiguei um bocado de pão e deixei que as minhas papilas gustativas devorassem e se arrepiassem com aquele meu gesto pecaminoso.

Caspa

Todo o dia. A todas as horas. A todo o momento. Caspa. Kasparov, o famoso jogador de xadrez, sofria de caspa e isso era uma enorme maçada que impedia um xeque-mate perfeito. Na sua vida de campeão, aquela neve branca que se lhe assentava sobre os ombros, tornava-se num peão que não andava muito. Kasparov havia de se habituar, mas já tinha perdido uns jogos à conta disso. Os tabuleiros pareciam a Guerra dos Tronos e, da cabeça do jogador, caía a neve e o Inverno estava a chegar.

O piolho aventureiro

Baseado em história verídica, este texto não aconteceu mesmo. Começa, como todas as boas histórias com um era uma vez. Neste caso era um piolho.

O piolho, ao qual me afeiçoei, e isto só partilho convosco, chamava-se Lhinho, diminutivo de Piolhinho. Era uma coisa carinhosa. Creio que aquilo que mais me despertou a atenção foi o facto de o piolho a quem nos dedicamos ser detestado por toda uma comunidade humana.

X - Outro lugar

Tanto Amaro como Linda ficaram mais uns dias naquela paz e, no dia em que tiveram de partir, despediram-se com um sentimento de vazio. Linda não estava já em si. Linda já tinha chegado a 80% do lugar onde estaria, no lugar onde ficaria. Esse lugar era um lugar feio, vazio, onde ninguém queria estar. Amaro sabia onde a mulher ficaria, conhecia bem esse lugar vazio.

IX Koh Mak - Tailândia

O destino seguinte dos dois não estava definido. A decisão, como muitas no passado, tinha sido feita em comum acordo e decidiram os dois que aquela era a melhor opção. A mulher de Amaro tinha pedido expressamente que fossem ambos para um lugar escondido, com o menor número de pessoas possível. Na fase em que se encontrava, apenas o silêncio a ajudaria a aguentar o peso que sobre a sua cabeça se acumulava. A mulher de Amaro, Linda, tinha consciência do seu estado e sabia o que lhe estava reservado.

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