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O INEXPLICÁVEL

O rapaz escrevia como um verdadeiro legislador, embora não o fosse, nunca tivesse sido e não percebesse a mínima coisa sobre leis. Mas mesmo assim, descontente ora, relaxado outrora, escrevia coisas tão certinhas como as palavras dos diplomas legais.

ARJAMOLHO

Fui de férias a Portugal em pensamento. Na ideia, há tanto tempo que não pisava o chão do aeroporto de Lisboa. Há muito tempo que ansiava pelo Sol de Lisboa, pelas praias do Algarve e pelas planícies douradas do Alentejo. Nos campos doirados, as árvores verdes e castanhas, algumas alaranjadas pela tirada da cortiça. No Algarve, as laranjas de Silves e de todos os lados. Algumas da baía, outras doces, tão doces em que a vitamina C se transformava em açúcar e deliciava os lábios de todos.

O LOGÓTIPO

Cada vez que se sentava, a secretária tinha o cuidado de arrumar as folhas em pastas e as pastas em gavetas e as gavetas alinhadas no seu compartimento que era, no fundo, uma pequena coisa, comparada com o edifício todo. Parecia, uma pequena formiga num prédio que era um gigante formigueiro.

EM BANHO-MARIA

Conduzia um Lamborghini verde alface e usava umas jardineiras. Já ninguém usava jardineiras de ganga com all-stars, daquelas jardineiras que não chegavam bem ao fundo porque estavam dobradas. O carro era baixinho, mas andava a uma velocidade que, comparada com a de um caracol, multiplicada por uns bons milhares, dava muito tempo.

COSTELETINHAS DE BORREGO

O tipo era muito sossegado. Não dizia uma palavra sem pensar nos múltiplos sentidos que essa mesma palavra pudesse ter e nas consequências, nos atos e nos efeitos da semântica proverbial que se acumulava nas intenções do pensamento, a meio que a fugir para uma condensação demasiado hermética das suas ideias. Tinha sempre um fato preto vestido, com uma gravata também preta. Tinha óculos, envergava, no inverno, uma capa escura e usava um chapéus e os óculos eram escuros. Era, resumindo, uma figura meio estranha do panorama da intelectualidade da vila onde vivia.

SAPATOS

Uma tinha uns sapatos meio esquisitos calçados, cada um em seu pé trocado. Outro tinha umas botas de cabedal, aspeto usado, meio gasto, meio cansado. Outro tinha botas de trabalho, cimentadas, com um ar de biqueira de aço.

Nisto, as minhas sapatilhas, azuis com cordões alaranjados, passavam meio, e talvez não, despercebidas. Pois, eu bem as olhava e pensava cá para mim que a escolha podia ter sido menos irreverente. No fundo, pensava mas discordava. A escolha tinha sido consciente e até estava contente.

TINHA A MANIA DOS VERBOS

O marafado do gaiato era esperto e ligeiro como as cobras. Andava sempre à cata de conseguir saber mais e de fazer melhor. O marafado do moço, ou o moço marafado, era da cidade. Tinha a esperteza e a sageza de quem convive há muito com o desenrascanço. Podia ter-lhe dado para pior, podia não saber muito na escola. Mas tinha a escola da vida.

A ALBARDA

Aquilo era uma cidade cosmopolita, cheia de gente em movimento, lojas e lojas, umas grandes e grandiosas, outras pequenas e gourmet. Aquilo era uma cidade em movimento, um não parar de gente que sempre apressada, nunca parecia contente.

CASCAS

Estavam sentados à volta de uma mesa de tampo de mármore e pernas de ferro ferrugento, com os pés de borracha. À sua frente, uma meia dúzia de minis e um monte de cascas de amendoim e tremoços. Sentavam-se todos à volta da mesa com o cerimonial de comensais em banquete real mas comiam caracóis e alcagoitas e bebiam minis em vez de ostras, caviar e champagne.

REVISTAS

A Dona Giralda apressou-se a sair de casa naquele dia. Bem, naquele dia e todas as semanas no mesmo dia, à mesma hora. A Dona Giralda, filha do Senhor Giraldo, senhorio de muitas casas na vila, mas já falecido há muito anos, era uma senhora que, sem nunca ter casado e sem filhos, vivia sozinha no casarão, com a ajuda da Dona Rosário que sempre a acompanhara toda a vida, como governanta da casa.

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