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O CACHIMBO DA PAZ

Andavam todos contentes. Mais contentes do que os dias anteriores em que também tinham andado contentes. Era uma alegria, a felicidade, uma coisa tão grande vista do céu. Era isso, o regozijo das pessoas que estavam contentes e uma nuvem de fumo. Ora, era precisamente essa nuvem de fumo que se chamava assim pela junção das duas componentes da designação. Andavam todos contentes. Saltando e cantando. Mais contentes do que na semana anterior, porque nessa semana não tinham andado aos saltos e nem tinham cantado.

ESCADA ROLANTE

A luta começou voraz. Os dois homens agrediam-se mútua e violentamente, no fundo de uma escada. À volta deles, uma multidão de curiosos que sempre se agrega a qualquer confusão ou acidente pela mera curiosidade de ver o sucedido, acicatar os ânimos ou esperar o desfecho de uma cena que mais parecia retirada de um filme de ação. Ninguém sabia dizer se os homens se conheciam ou o motivo do início da violência. Ninguém tinha presente o exato momento em que começara.

A GALINHA

Falemos de animais. Oh, que chatice, esta semana outra vez, dizia alguém que estava mais afastado, a ler ao longe o texto que o outro estava a começar a escrever. Todavia, a história começava. E começava assim. Estavam cinco pessoas naquela sala onde se iria desenrolar o vil caso… Por isso mesmo, avisa-se já o estimado leitor que se trata de um aterrador acontecimento, possivelmente gráfico, suscetível de causar trauma. Se assim, for, como se faz nos anúncios, filmes, tudo, aqui fica o disclaimer (isenção de responsabilidade da nossa parte). Tirando o introito, aqui vai.

A MOSCA SONHADORA

Na pequena localidade da Azinheira de Cima morava uma mosca. Alta, bonita, óculos de sol tipo mosca, sempre vestida com um ar meio esverdeado que parecia quase um vestido de noiva. Cinturinha delgada e brilhantina por cima dos óculos. Os lábios eram escuros e pareciam movimentar-se sempre em busca de algo. Olfato, ui, esse era apuradíssimo. Mas mosca, cujo nome não disse e não se perguntou, por uma questão de respeito e porque, convenhamos, entender o que diz uma mosca seria complicado. Além do zzzzzzz que não nos significaria nada além de zzzzzz.

UM PAR DE PEÚGAS

Pôs uma saqueta de chá adelgaçante numa chávena de chá, encheu a cafeteira de água à medida da chávena, ligou a chaleira elétrica e sentou-se na cadeira. A cadeira recostava-se e deixava que a sensação de ir e voltar se mantivesse numa constante permanente, ao segundo. A sensação embalava-o enquanto abria e fechava os olhos como se estivesse a meditar. Em meditação profunda, o barulho de fundo era o volume da água a ferver na chaleira que se ouvia em gradação.

REGISTO DE NASCIMENTO

Nasceu numa sexta-feira. Quando nasceu era bebé. Há muitos anos atrás que nasceu. Tantos anos que o cabelo que diziam que tinha quando nasceu, já o abandonou agora. É um processo. Acontece a todos. Esta pequena história passava-se no tempo do restaurador Olex, ou antes ainda, se isso servir como marcador temporal para uma narrativa que se pretende medianamente breve. Na altura, tal como hoje, os bebés nasciam sem cabelo. Lá havia um ou outro que trazia já uma penugem mais acentuada a que os pais, apressadamente, diriam… o meu bebé já nasceu com cabelo e tudo. Este era um deles.

AVENTESMA

a·ven·tes·ma |ê| 

(latim phantasma-atis, do grego fántasma-atos)
 

substantivo de dois géneros

1. [Informal]  Aparição de uma pessoa morta ou da sua alma. = AVEJÃO, ESPECTRO, FANTASMA

2. [Informal]  Pessoa ou objecto assustador, disforme ou demasiado grande.

"aventesma", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008 - 2013, https://www.priberam.pt/dlpo/aventesma.

 

O CAMINHO DA FORMIGUINHA

Era uma vez uma formiguinha. Não, duas. Uma formiguinha e outra formiguinha. Detestavam-se uma à outra. Não se podiam ver. Aquilo que sabiam uma da outra era que não havia nada de interessante em ambas que pudesse mudar a opinião das congéneres. Eram duas simples formiguinhas, tão iguais a todas as outras que eram iguais a estas. Pretas, com grande rabo, tenazes no focinho e duas pequenas antenas.

O INEXPLICÁVEL

O rapaz escrevia como um verdadeiro legislador, embora não o fosse, nunca tivesse sido e não percebesse a mínima coisa sobre leis. Mas mesmo assim, descontente ora, relaxado outrora, escrevia coisas tão certinhas como as palavras dos diplomas legais.

ARJAMOLHO

Fui de férias a Portugal em pensamento. Na ideia, há tanto tempo que não pisava o chão do aeroporto de Lisboa. Há muito tempo que ansiava pelo Sol de Lisboa, pelas praias do Algarve e pelas planícies douradas do Alentejo. Nos campos doirados, as árvores verdes e castanhas, algumas alaranjadas pela tirada da cortiça. No Algarve, as laranjas de Silves e de todos os lados. Algumas da baía, outras doces, tão doces em que a vitamina C se transformava em açúcar e deliciava os lábios de todos.

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