Está aqui

Artigos publicados

Kalimero

Recordo-me tão bem de ti, quando ainda tinhas metade do ovo na cabeça e era o pinto frágil e tímido que me entrava pela televisão a dentro. E eu ficava contente e gritava, obrigado, obrigado!!! Fora eu grego, soubera eu o significado do teu nome. Kalimero, obrigado, obrigado. Encontramo-nos ambos, depois, muito mais tarde e mais velho. Não te reconheci à primeira vista. Talvez fosse porque o ovo que até aí tinhas na cabeça, era aquilo que te diferenciava dos outros. Bem, também poderia ser a tua timidez. Kalimero. Encontrei-te e não te reconheci no primeiro momento.

J de José

José sorria jocoso enquanto jogava um jogo chamado Jeopardy. Sentado no jardim, rodeado de jasmim, já sabia que aquilo não ia correr bem. Junto a ele estava um jarro de mel jeitoso. Bem desenhado, o jarro começava a ficar rodeado de abelhas que faziam jjjjjjjj. José começou a ficar nervoso e começou a andar de um lado para o outro, gritando por ajuda. O pobre rapaz era alérgico a picadas de abelhas, especialmente as que faziam jjjjj.

Imprudência

Gavina! Gavina! Gavina! Gritava o homem a peito cheio, na discussão que travava com a vendedora do mercado. No lugarejo de Imparável, ninguém parava o ímpeto consumista dos habitantes de Imparável, que por acaso se chamavam imparáveis. No lugarejo ninguém parava, nem a dormir. Nessa altura, toda a aldeia sonhava, que era a mesma coisa que estar a fazer alguma coisa.

Hiato

Hugo andava louco naquele tempo. Naqueles dias em que nada crescia nas planícies ou nos campos imensos, Hugo sentia-se profundamente infeliz. Não creio que mesmo que viesse a chuva, deixaria de assim ser. Habitava num local perdido entre duas grandes cidades.

O nome fora-lhe dado por isso mesmo. Entre as cidades imaginárias de Heráclito e Herodia, Hugo morava no pequeno povoado de Hiato.

Gastrologia

Chico Alfarroba dava todo um novo significado à palavra gastrologia. Nascido numa família de longa tradição de comilões, Chico Alfarroba tinha nascido completamente o oposto de toda a família. A alcunha ganhara-a por ossos do oficio. Mas disso falaremos adiante. Permiti-me caracterizar a família de Francisco António da Cruz Feliciano da Silva Guimarães Guerra e Gonçalves. A mãe e o pai tinham uma tasca no meio da vila.

Falsificação

Frederico Ferreira Fernandes era falsificador de filmes, fotografias e fotocópias. Habitante de Famalicão, fazia as suas falsificações numa firma de frigoríficos. Amante de cinema, Frederico Ferreira Fernandes tinha uma vida calma e, sempre que podia, ia ao cinema ver um filme. O seu favorito era o Frankenstein. Tinha visto o filme vezes sem conta. Tantas vezes tinha Frederico feito as mesmas coisas que os vizinhos e os habitantes de Famalicão já lhe conheciam as rotinas.

E é ou não é?

É! Talvez seja, mas se não for, também existe a hipótese de que seria.... eventualmente, dependendo do empenho dos especialistas e dos estudantes. Vários estudos patrocinados por várias entidades tentaram verificar se era ou não era e onde colocar o indivíduo que se chamava Eduardo, mas por razões de privacidade chamar-lhe-emos indivíduo E.

D de Dor

Tantas palavras há para falar entre aquelas que começam pela letra D. Optei por começar a escrever sobre algo que todos nós, algum dia já sentimos – dor. Seja ela física, emocional, racional, irracional. A dor é comum a todos nós e em tantas situações devastadora. Dói quando falamos de dor. Dói quando nos sentimos sós ou quando alguém, através de qualquer palavra, começada por qualquer letra nos trespassa o coração sem qualquer piedade.

C - Cambada de erros crassos

O cigno do Cidónio era Caranguejo. Tudo nele condizia. Andava de lado, em vez de andar em frente. Não porque fosse tropo ou coxo, mas era mesmo assim o Cidónio. O nosso personagem dizia que tinha nascido na cidade de Coimbra (só porque começa em C...) mas, na realidade, ele nasceu em Cetúbal, no ano de 1926. A vida nessa altura não era nada fácil, custava começar uma vida e concentrar as coisas num caminho como a vida no campo. Cidónio cresceu contente, ignorando a cambada de erros crassos (ou nem assim tantos) que seria a sua vida.

Uma crónica literária começada com B

Belzebu nasceu de um corno de Pã. Mau como as cobras, a figura teve de fugir do meio onde se encontrava. Já tinha feito mal a mais de metade da povoação onde vivia. Belzebu, feio como uma besta, cara de bezerro e corpo de burro, arranjava sempre conflitos com toda a gente que morava na povoação. As pessoas, seres humanos que desconheciam a verdadeira origem e natureza de tal ser, cujo nome começava por B, falavam dele sempre de modo pejorativo. Diziam as pessoas, ah filho de um corno. Mal sabiam que era mesmo filho do corno de Pã.

Páginas