Os representantes de 11 países europeus aprovaram em Lisboa um plano conjunto para responder à queda da natalidade e à necessidade de criar condições favoráveis à parentalidade, num momento em que a Europa enfrenta uma das transformações demográficas mais profundas da sua história. No âmbito da cimeira europeia “Tackling Infertility”, especialistas e decisores defenderam que a fertilidade deve deixar de ser um tema marginal para se tornar uma prioridade pública, social e económica.
Esta urgência é particularmente visível no Alentejo, onde os indicadores demográficos revelam uma realidade crítica, com o índice de envelhecimento a atingir os 227 idosos por cada 100 jovens em 2024, um valor significativamente acima da média nacional de 192,4.
Apesar de a região ter registado um ligeiro aumento no número de nascimentos em 2025, com 2.706 bebés face aos 2.642 do ano anterior, os especialistas alertam que estes números continuam abaixo dos níveis pré-pandemia e são insuficientes para reverter o saldo natural negativo. Mónica Ferro, diretora do Fundo das Nações Unidas para a População, apresentou dados que confirmam que, embora a maioria das pessoas deseje ter filhos, barreiras económicas como o custo de vida e a habitação impedem a concretização deste projeto.
No Alentejo, concelhos como Gavião apresentam cenários extremos, com um índice de envelhecimento de 535,1, o mais elevado da região, o que evidencia o risco de isolamento geracional se medidas estruturais não forem aplicadas.
Para responder a este desafio, o plano aprovado em Lisboa foca-se em três eixos estratégicos: literacia, trabalho e acesso. Rita Sá Machado, diretora-geral da Saúde, revelou que Portugal está a preparar o Programa Nacional para a Saúde Sexual e Reprodutiva, que transformará as tradicionais consultas de planeamento familiar em consultas integradas de saúde sexual e reprodutiva. Esta mudança é vital para combater o adiamento da parentalidade, uma tendência que se reflete na idade média das mães ao primeiro filho, que já ultrapassa os 30 anos em Portugal. A cimeira sublinhou ainda a necessidade de garantir o acesso equitativo a tratamentos de fertilidade, num contexto em que a mediana do tempo de espera para a primeira consulta no SNS em 2024 foi de 142 dias, com quase 70% das consultas a não cumprirem os prazos legais.
O novo paradigma defendido por especialistas como Luca Gianaroli e Marta Temido exige que a União Europeia reforce a investigação e a prevenção, tratando a infertilidade com a mesma prioridade de outras áreas da saúde. No Alentejo, a implementação de políticas que permitam compatibilizar carreira e parentalidade, aliada a incentivos financeiros que reconheçam o impacto económico das decisões familiares, é vista como uma das poucas formas de fixar jovens no interior e combater o “deserto demográfico”.
Como destacou Luís Ferreira Vicente, presidente da Sociedade Portuguesa de Medicina da Reprodução, é fundamental falar mais cedo sobre fertilidade para evitar que as dificuldades surjam apenas quando o tempo biológico já é escasso.
