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O 26 de abril

A ditadura portuguesa durou 48 anos

Para quem nasceu em 1926, ano do seu início, significou viver até aos 50 anos sob um regime autoritário. Houve, aliás, quem, devido à idade, tenha falecido sem nunca ter conhecido, na vida adulta, outro sistema político que não o Estado Novo.

Para mim, é avassaladora a ideia de não ter conhecido outro Portugal senão esse Portugal cinzento. E imagino que também tenha sido avassalador ser subitamente confrontado com a explosão de cores do país após o 25 de Abril.

É possível que essa tenha sido a razão de 92% dos Portugueses terem votado nas eleições para a Constituinte a 25 de abril de 1975, porque pela primeira vez tinham o seu futuro nas mãos.

Vergílio Ferreira é um exemplo claro dessa geração. Autor de Aparição, obra-prima que tem como pano de fundo a cidade de Évora, nasceu em 1916, tinha 10 anos aquando do Golpe de 28 de Maio de 1926, que acabou com a I República e 58 no momento do 25 de Abril. Dos seus 80 anos de vida, apenas cerca de 20 foram vividos em democracia.

Desde fevereiro de 1968, Vergílio Ferreira começou a escrever um diário, que seria publicado a partir de 1981.

Gosto sempre de voltar, nestes dias que celebram a efeméride, a esses mesmos diários e às passagens dos dias 25 e 26 de abril de 1974.

“25 de abril (Quinta):Às sete da manhã um amigo telefona-me «Ouça a rádio.» Ouço sem entender: rebentou a Revolução. A Revolução? Que Revolução? Por fim lá vou compreendendo. Toda a manhã a rádio nos vai esclarecendo com notícias. Passámos o dia à escuta. Será possível?

26 de abril (Sexta-feira): Vitória. Embrulha-se-me o pensar. Não sei o que dizer. Uma emoção violentíssima. Como será possível? Quase cinquenta anos de fascismo, a vida inteira deformada pelo medo. A Polícia. A Censura. Vai acabar a guerra. Vai acabar a

PIDE. Tudo isto é fantástico. Vou serenar para reflectir. Tudo isto é excessivo para a minha capacidade de pensar e sentir”.

Chega a ser comovente a forma como conseguimos intuir toda a emoção que o escritor passa quando afirma que “tudo isto é excessivo para a minha capacidade de pensar e sentir”. Era inimaginável para quem nunca tinha vivido noutra realidade, abrir a porta onde tudo se tornava possível, onde pela primeira vez alterar a realidade e a própria relação com os outros, em discutir, discordar, mas sem ser preso ou com medo.

É inevitável fazer uma transposição deste sentimento para hoje, onde pelo contrário, parece que já pouco é possível alterar, que caminhamos numa estrada já traçada por alguém em que as escapatórias que aparecem no trajeto são escassas ou nulas.

Mas não é verdade. Ainda vivemos no único sistema político que nos permite agarrar o futuro com as nossas mãos e fazer alguma coisa para o melhorar. Só temos de ter sobriedade e coragem. Quem sabe, um pouco da coragem de quem resistiu e conseguiu mudar um regime para quem era a única realidade que conhecia.

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