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A encruzilhada europeia: da energia à inteligência – Martinho Murteira

Há momentos na História em que uma sociedade percebe que o mundo mudou antes de perceber exatamente o que fazer com essa mudança. A Europa parece estar a viver um desses momentos.
Não é apenas a guerra na Ucrânia. Não são apenas as tarifas de Trump. Não é apenas a ascensão da China. Não é apenas a inteligência artificial. Nem sequer é, isoladamente, a transição energética.
É a combinação de tudo isto.
Porque, pela primeira vez em muito tempo, questões que pareciam pertencer a mundos diferentes começaram a depender umas das outras. A energia deixou de ser apenas uma questão económica para passar a ser também uma questão de segurança. A tecnologia deixou de ser apenas inovação para se tornar uma questão de soberania. A indústria voltou a ser uma questão estratégica. E a inteligência artificial começa a alterar a própria relação entre tecnologia, produtividade e poder.
As peças começaram a encaixar-se umas nas outras. E, quando isso acontece, já não basta olhar para cada uma separadamente. É preciso perceber o desenho que formam em conjunto.
Durante décadas, a União Europeia pôde dar-se ao luxo de acreditar que determinadas coisas simplesmente estariam lá quando fossem necessárias.
Energia? Comprava-se.
Tecnologia? Importava-se.
Segurança? Os americanos tratavam disso.
Componentes eletrónicos? Vinham da Ásia.
Matérias-primas? O mercado mundial encarregava-se delas.
Capital? Havia nos mercados internacionais.
A Europa podia, assim, concentrar-se naquilo em que era extraordinariamente boa: engenharia, indústria, ciência, serviços, comércio e qualidade. Era uma estratégia perfeitamente racional num mundo relativamente previsível.
O problema é que o mundo deixou de ser previsível.
A pandemia mostrou que uma cadeia de abastecimento demasiado eficiente também pode ser uma cadeia demasiado frágil. A guerra na Ucrânia mostrou que uma fatura de gás pode transformar-se numa questão de segurança nacional. E a inteligência artificial está a demonstrar que aquilo que parecia pertencer ao departamento de informática passou rapidamente para os departamentos da indústria, da defesa, das finanças e da geopolítica.
É neste contexto que a energia ganha uma importância que vai muito além da economia. É a base da indústria, da mobilidade, das infraestruturas digitais e, cada vez mais, da própria inteligência artificial. Aquilo que parecia pertencer a domínios distintos — economia, tecnologia, indústria e defesa — começa, afinal, a assentar nas mesmas infraestruturas e nos mesmos recursos.
A inteligência artificial é talvez o melhor exemplo. Por muito digital que pareça, depende de chips, centros de dados, redes e, sobretudo, de enormes quantidades de eletricidade. A economia do futuro pode ser cada vez mais digital, mas a sua base continuará a ser profundamente física.
É esta interdependência que muda a natureza do problema.
Nenhuma grande economia pode — ou precisa de — produzir tudo aquilo de que necessita. A interdependência faz parte do funcionamento normal de uma economia global. O problema começa quando uma dependência se torna crítica: quando não existem alternativas credíveis, quando a substituição é demasiado lenta ou cara, ou quando o fornecedor pode transformar uma relação económica numa fonte de pressão estratégica.
É a diferença entre depender de alguém e ficar à mercê de alguém.
É neste ponto que surge o paradoxo da União Europeia.
A Europa continua a ser uma potência científica e industrial. Produz conhecimento, patentes e tecnologias críticas. Tem empresas de referência e uma enorme capacidade de engenharia. Mas continua a ter dificuldade em transformar suficientemente esse conhecimento em empresas globais, escala e, sobretudo, controlo económico.
Porque inventar é apenas metade da história.
A outra metade é conseguir financiar, produzir, escalar e vender.
E é precisamente nessa passagem — da invenção para a escala — que os Estados Unidos e a China construíram vantagens enormes.
Talvez o mais irónico seja isto: a Europa passou décadas a explicar ao mundo como fazer as coisas corretamente, enquanto outros se concentraram em fazê-las.
Agora descobrimos que a História não atribui prémios pela qualidade dos relatórios, pela elegância das diretivas ou pela quantidade de reuniões realizadas.
No mundo que se desenha, quem tiver energia, chips, inteligência, indústria, capital e tecnologia terá margem para escolher. Quem depender deles terá, pelo menos, margem para comentar.
E talvez esta seja a verdadeira encruzilhada europeia: continuar a ser a civilização que melhor regulamenta o futuro — ou voltar a ser uma das que também o constrói.

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