A pecuária do Alto Alentejo atravessa um período de transformação, marcado pelo crescimento de algumas raças de bovinos de carne e do porco alentejano, mas também pelo forte recuo da produção de leite. O retrato foi traçado pelo veterinário Rui Martelo, que integra uma empresa de gestão e consultoria agrícola do distrito de Portalegre, à margem da Feira das Cebolas.
Na bovinicultura, as raças Limusine e Angus têm vindo a ganhar expressão no distrito, acompanhando a procura do mercado por diferentes características de carne. A Limusine destaca-se pela musculosidade e rendimento de carcaça, enquanto a Angus é valorizada pelo marmoreado da carne, sobretudo nos segmentos de restauração de gama alta.
A raça alentejana mantém-se relativamente estável, depois de um período de decréscimo. Segundo Rui Martelo, a evolução estará relacionada, em parte, com medidas de apoio e protecção à raça, embora não se registe actualmente uma tendência de crescimento. Nos ovinos, a presença continua a ser significativa, mantendo-se a ovelha merina como uma componente importante das explorações pecuárias do Alto Alentejo.
Já os caprinos apresentam números reduzidos, numa tendência que acompanha o recuo da actividade a nível nacional. Os custos de mão-de-obra e as dificuldades associadas ao escoamento do leite estão entre os factores que têm contribuído para a diminuição deste sector.
Na suinicultura, a evolução é diferente. O porco alentejano tem registado algum crescimento, com mais produtores a afectarem parte das suas explorações a esta actividade, acompanhando a valorização dos produtos associados à raça. A procura por produtos certificados e com origem rastreável, como presuntos, enchidos e carne fresca, tem contribuído para reforçar o interesse nesta produção tradicional do Alentejo.
O cenário mais preocupante verifica-se, contudo, na produção de leite. Rui Martelo estima que subsistam actualmente apenas quatro ou cinco explorações de vacas leiteiras na região, num sector que no passado teve uma expressão consideravelmente maior. O declínio estende-se também aos pequenos ruminantes, afectando a produção de leite de ovelha e de cabra e, indirectamente, actividades como a produção tradicional de queijo.
Um dos exemplos mais representativos desta transformação é a Serra Leite, cooperativa que durante décadas esteve associada à produção leiteira no Alto Alentejo e que está actualmente integrada no grupo Jerónimo Martins. Segundo o veterinário, a actividade apresenta uma tendência de desaparecimento.
Entre os principais constrangimentos apontados ao sector estão os elevados custos de produção, a pressão sobre os preços, a falta de mão-de-obra especializada e a concorrência de leite proveniente de outros mercados. A redução continuada do número de explorações leiteiras representa, assim, uma mudança estrutural na agricultura do Alto Alentejo, com impacto não apenas na actividade pecuária, mas também nas fileiras agroalimentares que dela dependem.
