Faz hoje 25 anos que o mundo mudou drasticamente. Na manhã de 11 de setembro de 2001, o voo 11 da American Airlines desviava-se da sua rota de Boston para Los Angeles e colidia com a Torre Norte do World Trade Center, em Nova Iorque, marcando o início do maior atentado terrorista da história moderna. O relógio assinalava as 8:46 locais (13:46 em Lisboa) quando o primeiro aparelho, sequestrado por cinco terroristas da Al-Qaeda, atingiu o coração financeiro da cidade, ceifando de imediato a vida a pelo menos 1.366 pessoas que se encontravam no bloco de 110 andares inaugurado na década de 1970.
Apenas dezassete minutos depois, perante os olhos do mundo que já acompanhava a tragédia em direto na televisão, o voo 175 da United Airlines embateu violentamente contra a Torre Sul. Seguiu-se o caos generalizado: às 9:37, um terceiro avião (voo 77 da American Airlines) foi projetado contra o Pentágono, na Virgínia. A carnificina só não foi maior porque os passageiros do voo 93 da United Airlines se revoltaram contra os sequestradores, despenhando a aeronave num campo na Pensilvânia às 10:03 e impedindo que esta atingisse o seu alvo na capital norte-americana.
No total, a fúria terrorista fez 2.996 vítimas mortais diretas — incluindo os 19 operacionais da Al-Qaeda e centenas de operacionais de socorro —, um número que continuou a crescer ao longo dos anos devido às maleitas oncológicas provocadas pelas poeiras tóxicas libertadas no colapso dos edifícios.
O trauma geopolítico gerou uma avalanche de teorias da conspiração que ganharam força com a posterior divulgação de relatórios oficiais e gravações secretas. Críticos e analistas apontaram o dedo à administração de George W. Bush, sugerindo que o desastre serviu de pretexto conveniente para alimentar os interesses da indústria do armamento e garantir o controlo do petróleo no Médio Oriente. A subsequente invasão do Iraque em 2003, justificada pela alegada e nunca provada existência de armas de destruição maciça, arrastou o Ocidente para um conflito prolongado e redefiniu as regras globais de segurança.
A obsessão pelo combate ao terrorismo traduziu-se na compressão das liberdades civis. Nos Estados Unidos, o Patriot Act permitiu que as agências de espionagem vigiassem comunicações eletrónicas e telefónicas sem supervisão judicial, afetando cidadãos nacionais e estrangeiros. Sob esta égide legalista nasceram a prisão de Guantánamo, em Cuba, e um circuito internacional de voos secretos de tortura e detenção ilegal de suspeitos, episódios em que vários governos europeus foram cúmplices. Embora Barack Obama tenha tentado reverter este cenário em 2015 com o Freedom Act, e apesar das promessas não totalmente cumpridas de desmantelar Guantánamo, a imagem de bastião moral de Washington ficou manchada. O golpe final na reputação da inteligência americana surgiu com as revelações de Edward Snowden, que expôs esquemas massivos de ciberespionagem global que monitorizavam inclusive chefes de Estado aliados, abrindo fissuras profundas na diplomacia ocidental.
Duas décadas e meia após o colapso das Torres Gémeas, a instabilidade e a violência no Médio Oriente persistem, alimentando vagas migratórias e novos focos de radicalismo que atingiram diretamente o solo europeu. Contudo, o olhar da Europa sobre os Estados Unidos sofreu uma transformação estrutural. Se em 2001 o Velho Continente cerrou fileiras em solidariedade absoluta com os americanos, hoje a Europa encara os EUA de Donald Trump com profunda desconfiança e pragmatismo.
O regresso de Donald Trump à Casa Branca consolidou uma visão norte-americana assente no isolacionismo e no ceticismo face às alianças tradicionais como a NATO. Para Bruxelas e para as principais capitais europeias, Washington deixou de ser o fiador previsível da segurança transatlântica. A imprevisibilidade da liderança de Trump — que encara as relações internacionais como meras transações comerciais e adota uma postura de confronto em frentes que vão do protecionismo económico à abordagem de conflitos globais — forçou os líderes europeus a acordar para a necessidade premente de uma “autonomia estratégica”. Em suma, os problemas gerados pelo pós-11 de Setembro não desapareceram, mas a Europa compreendeu que já não pode contar cegamente com o parceiro do outro lado do Atlântico para os resolver.
