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As democracias

A nossa espécie está neste planeta há cerca de 2 milhões de anos.

Durante estes 2 milhões de anos, passámos a utilizar e a controlar o fogo, fomos de nómadas para sedentários com a invenção da agricultura, descobrimos a roda, a possibilidade de navegar, a máquina a vapor, a fissão nuclear, tendo essas e mais um incontável número de invenções culminado nas incríveis tecnologias que hoje temos ao nosso dispor.

Ao longo destes anos, a nossa forma de organização social foi ganhando novas dimensões: de tribos passámos a comunidades, de ajuntamentos a aldeias e de aldeias a cidades, controlando e reconhecendo como “nosso” não só o sítio onde vivíamos, mas também o horizonte que nos rodeava.

A prática do poder teve diferentes roupagens, desde o mais forte ou ao mais velho que mandava, à existência de um grupo minoritário de pessoas que decidiam, à existência de poder transmitido de pai para filho por razões divinas, à existência de sistemas opressivos e à criação de sistemas democráticos, em que o poder reside no próprio povo que é governado e é ele que confere legitimidade a quem o governa.

Existem várias teorias e formas de olhar para o termo “democracia” e definir o que é mais ou menos democrático, partindo sempre da premissa que é o sistema em que o poder reside no povo, essa, aliás, foi uma das questões que levaram a guerras e revoluções nos últimos 400 anos.

Pessoalmente, acredito que o sistema que devemos viver será sempre aquele que independentemente da origem económica, idade, género ou religião, todas as pessoas que vivem num determinado sistema político devem poder escolher livremente qual é, na sua opinião, a melhor forma de viverem a sua vida e mudarem-na, se assim o pretenderem, salvaguardando a existência de poderes que se regulam, evitando a existência da ditadura da maioria.

A frase cantada por Sérgio Godinho de que a democracia é o pior de todos os sistemas com exceção de todos os outros carrega em si a certeza de que este sistema é imperfeito, tem as suas falhas, mas que mesmo com essas falhas e insuficiências será sempre melhor que outro qualquer tipo de sistema.

Estatisticamente, as democracias tiveram a sua explosão no século que passou, com o culminar da segunda guerra mundial, chegando ao seu pico no ano 2000.

Os dados que temos dizem que ao chegar ao ano de 2026, apenas 17% da população mundial vive em regimes democráticos, 31% em regimes que são formalmente democráticos, 32% em regimes que são autocracias eleitorais e 19% em regimes puramente autocráticos.

Portugal, que é considerado um país que tem um regime democrático, é uma exceção comparando e tendo como análise um panorama global. Com exceção do período da segunda-guerra mundial é a primeira vez que os regimes democráticos estão a ter um recuo, já que em 2009 acabou por terem o seu apogeu, com 25% da população a viver neste tipo de regime.

É importante termos consciência desta realidade: a democracia não é um dado adquirido e, num contexto global de recuo democrático, preservar as liberdades e os direitos que conquistámos é também uma responsabilidade de todos nós. Conhecer esta realidade é, por isso, essencial para que não tomemos por garantido aquilo que tantas gerações lutaram para conquistar.

A democracia não termina de um dia para o outro, é a sua corrosão ao longo de anos que origina a sua decadência. No livro de Milton Mayer, que já abordei num destes textos, “Eles pensavam que eram livresonde encontramos uma série de entrevistas com antigos membros do partido Nazi, o autor chega a uma conclusão:raramente as democracias morrem num instante, é a sua erosão que leva a acordarmos um dia e pensarmos: Como  viemos afinal aqui parar?

 

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