O relatório anual da Entidade Reguladora dos Serviços Energéticos (ERSE) sobre o funcionamento das redes de gás natural em 2025 revela que Portugal voltou a importar gás natural liquefeito da Rússia pelo terminal de Sines, tal como em 2024. Das três origens principais de GNL — Nigéria com 50% das descargas, Estados Unidos com 43% e Rússia com 7% — chegaram ao terminal alentejano três navios metaneiros de origem russa, o mesmo número do ano anterior, com uma energia descarregada de 3,3 terawatts-hora igualmente inalterada. A responsabilidade recai sobre um único contrato de longo prazo da empresa espanhola Naturgy, que mantém o fio de ligação entre o terminal alentejano e os campos de gás russos enquanto a legislação europeia não obrigar ao seu encerramento antecipado — situação já reconhecida pela ministra do Ambiente e Energia, Maria da Graça Carvalho, em fevereiro.
Portugal comprometeu-se a pôr termo às importações de GNL russo até ao início de 2027, ao abrigo do quadro regulatório europeu de eliminação progressiva das compras de gás à Rússia. O prazo é tecnicamente possível, mas politicamente sensível, dada a existência do contrato da Naturgy e os mecanismos legais necessários para a sua rescisão antecipada ou proibição ao abrigo das novas regras comunitárias. Entretanto, os restantes indicadores do relatório da ERSE apontam para uma melhoria global no desempenho das redes: apenas 0,7% das instalações de clientes — cerca de 10.861 num total de 1,57 milhões — foram afectadas por interrupções, e na rede de transporte não se registaram interrupções nos pontos de saída pelo sexto ano consecutivo.
A revelação surge num momento de profunda contradição para Sines. Pelo mesmo terminal que o Governo apresenta como âncora do futuro energético de Portugal — com o maior electrolisador de hidrogénio verde da Europa recentemente em funcionamento, projectos de energia renovável a multiplicarem-se e o porto a receber investimento de dimensão histórica —, continuam a chegar três navios por ano carregados com o gás de um país que invadiu um vizinho europeu. É a contradição que define o momento de transição energética em que vivemos: o futuro verde não elimina imediatamente o passado fóssil — e, neste caso, um passado fóssil com implicações geopolíticas que 2027 ainda não chegou para resolver.
No primeiro semestre de 2026, França foi o principal destino na União Europeia, com 51 cargas e um total de 3,74 milhões de toneladas, seguida da Bélgica, com 37 cargas e 2,70 milhões de toneladas. Espanha recebeu 34 cargas, correspondentes a 2,50 milhões de toneladas, enquanto os Países Baixos registaram 12 cargas, num total de 881.970 toneladas. Portugal recebeu duas cargas de gás natural liquefeito (GNL) provenientes da Rússia.
