20 Setembro 2020      10:26

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Há coisas que um alentejano não pode tolerar

“Não é impunemente que se nasce alentejano.” - disse Eugénio de Andrade. E não é mesmo. Seja de berço, seja de coração, não é alentejano qualquer um e há coisas que o alentejano não pode ouvir e tolerar.

No Alentejo, esta terra de liberdade que nem sempre foi livre - e com memória disto - há coisas que não se podem tolerar e eu, como alentejano, também não o farei.

O Alentejo é, e sempre foi dos alentejanos e de mais ninguém.

O Alentejo não era de Odete Santos e do PCP, nem o será de Ventura e do Chega!

Alguém vir ao Alentejo bradar que "Évora e o Alentejo também serão do Chega" por metafórico e retórico que seja, só revela prepotência e ignorância, como se o Alentejo pudesse ser de alguém se não daqueles que o sentem. O perigo, o grande perigo, está no caminho que esta corrente tem mostrado até aqui quanto às igualdades e às liberdades.

O Alentejo não é, nem será nunca, do Chega. Nem do PS, nem do PCP, nem do PSD, nem de nenhum partido, nem de nenhuma religião, clube, raça, nem de coisa alguma sectária que não seja o ser alentejano – e volto a frisar, de berço ou de alma, seja qual for a nacionalidade.

Muitos há que não querem vir para o Alentejo, de tal modo que se têm de criar incentivos especiais a juízes e médicos para que venham. Mas muitas pessoas fazem-no há anos sem benefícios extra. Além dos alentejanos que resistem por cá, muitos outros há que se juntam e se tornam alentejanos, sem incentivos: holandeses, ucranianos, americanos, franceses, alemães, muçulmanos, cristãos, judeus, pretos, brancos, amarelos, altos, baixos, gordos e magros. Alentejanos, ponto.

Os alentejanos votam em quem quiserem, mas não podem engolir a prepotência de um político de circunstância que vem a terra alentejana gritar posse de um região, de uma alma, e dar assim o pontapé de saída de uma convenção partidária que tinha o seu ponto alto na participação de Marine Le Pen, perdão, numa mensagem em vídeo da mesmíssima senhora que defende, tal como André, o fim da Educação e da Saúde gratuita.

Marine - a filha de Jean-Marie, o senhor que disse que o ”monsieur” ébola (um vírus altamente mortal) era capaz de resolver o problema da sobrepopulação mundial em três meses e que condenado, em 2005, por xenofobia,  antissemitismo e por incitar ao ódio racial – é a cara contra a imigração e tem apresentado laivos racistas e xenófobos nas suas intervenções e opiniões, notas que têm regido posições e opiniões de militantes e simpatizantes do partido do André.

Se o racismo, a xenofobia e as políticas anti-imigração não deveriam fazer sentido para ninguém, menos o deveria fazer aos portugueses; ter alguém que o defende vir ao Giraldo dizê-lo é algo quase contranatura para o povo alentejano, habituado a ter família por todo o mundo e a receber como família gente dos quatro cantos.

É verdade que nós portugueses temos uma das sequências genéticas únicas do mundo, um verdadeiro carimbo genético português e que é único não pela “pureza”, mas sim pelo seu pluralismo genético, por ser uma mescla de marcas genéticas de berberes, fenícios, gregos, romanos, celtas, germânicos, da África subsariana e de judeus sefarditas; vamos agora nós ser xenófobos?

Para os alentejanos, a pureza não é raça, vê-se no coração, na alma e na altivez das ações e dos princípios. Sabedoria de um povo que trabalhou de sol a sol, para uma nação cuja existência desta região durante anos foi somente significante por ser passagem da autoestrada para o Algarve.

Ora quem é alentejano, quem se reconhece alentejano, quem conhece os alentejanos, sabe que nós, embora possamos parecer carrancudos e desconfiados ao início, somos exatamente o oposto, aceitamos como dizem os azulejos em tantas casas “quem vier por bem.”

Acolhemos os espanhóis que fugiam do fascismo de Franco e fomos os lutadores resistentes da liberdade aquando dos tempos de Salazar, ou não fossem os alentejanos os resilientes homens e mulheres que souberam esperar e construir a sua Liberdade, a sua identidade com o suor do trabalho, criados com a dureza de ter uma lata de sardinhas para alimentar uma família e com a humildade e humanidade de que onde comem três, comem quatro.

E até acolhemos convenções de quem defende o contrário da nossa génese, mesmo que não cumpram as regras da DGS contra a Covid-19, mas não abusem. Dizia a Maria Vieira, fã incondicional do André, que não existe extrema direita, que o Chega é fruto da “extrema- necessidade”. Para mim, qualquer extremo é um absurdo e um abuso; o fascismo encapuçado, de esquerda ou de direita, não é exceção. Não há espaço para ele.

“O Alentejo é o do tamanho de quem o habita.” Não, não é teu, pá! É nosso!

Quanto a Abril, Abril não tem donos. Os valores que se quiseram conquistar então, devem ser postos em prática e defendidos todos os dias, no Alentejo, no país, no mundo. O bem que nos queremos, devemos querer para todos: Democracia, Liberdade, Igualdade, Direitos Humanos. Valores fundamentais que devem ser cumpridos, tal como os deveres, que também não podem ser esquecidos.

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