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A inflação que não aparece nos discursos

Dizem-nos que a inflação está a abrandar. E é verdade — nos gráficos. Já no supermercado, essa boa notícia parece ter-se perdido algures entre a prateleira do leite e a caixa registadora.

Convém, aliás, esclarecer o detalhe que raramente passa do rodapé: a inflação pode estar a descer sem que os preços desçam. Significa apenas que sobem mais devagar. Para quem paga, a diferença é tudo menos académica.

E depois há o contexto internacional. Fala-se de tensões no Médio Oriente, incluindo o Irão, como um potencial motor de nova inflação. Mas, para já, esse efeito não é claro nem automático. Sem uma subida sustentada do preço da energia, o impacto tende a ser limitado — o que não elimina o risco, apenas o adia. A ameaça existe, mas ainda não chegou, pelo menos não de forma evidente ao carrinho de compras.

O cabaz alimentar é onde estas contradições se tornam mais visíveis. Não é uma abstração — é despesa inevitável. E é também onde a narrativa da “normalização” começa a soar… otimista.

A chamada inflação “média” tem um problema simples: mistura tudo. Energia, serviços, bens industriais e alimentação entram no mesmo cálculo, como se pesassem o mesmo na vida de todos. Não pesam. Para muitas famílias, sobretudo as de menor rendimento, a alimentação ocupa uma fatia muito maior. E isso muda tudo.

Além disso, os alimentos essenciais não se comportam como outros bens. Não se substituem facilmente, não se deixam de consumir e reagem rapidamente a choques externos. Traduzindo: quando sobem, sentimos logo; quando estabilizam, o alívio demora.

Depois há a estrutura do mercado. Não, não vivemos num monopólio alimentar. Mas também não estamos propriamente num festival de concorrência perfeita. A distribuição está concentrada, e isso pode influenciar — sem teorias conspirativas — a velocidade a que os preços descem. Subir é urgente; descer pode esperar.

E não, não é necessariamente má-fé. É economia a funcionar como costuma: ajustes rápidos quando os custos aumentam, mais cautelosos quando diminuem.

Portugal, entretanto, joga este jogo com cartas que não controla totalmente. Depende de cadeias globais para energia, matérias-primas e transporte. Quando há turbulência lá fora, o impacto chega cá depressa. Quando acalma, a recuperação nem sempre tem a mesma pressa.

A energia, essa personagem secundária que decide metade do enredo, atravessa todo o sistema alimentar: produção, transformação, conservação e distribuição. Quando sobe, ninguém escapa. Quando desce… bem, depende.

O que estamos a ver no cabaz alimentar não é apenas um episódio passageiro. É o resultado de um sistema exposto: dependente do exterior, sensível a custos energéticos e com uma estrutura de mercado que não reage de forma instantânea em todas as direções.

Ainda assim, o debate público insiste em escolher lados: ou isto é tudo culpa do contexto global, ou é tudo culpa das margens. A realidade, como quase sempre, não cabe em slogans.

No fim, há uma pergunta simples que fica por fazer: se a inflação está a descer, porque é que o carrinho continua caro?

Enquanto essa resposta não for clara — ou convincente — será no supermercado, e não nas conferências de imprensa, que a economia será julgada. E aí, o júri decide com um talão na mão.

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