A nova linha ferroviária Évora–Elvas, concluída em janeiro de 2026 com um investimento de 460 milhões de euros, continua sem data de abertura ao público. O Governo revelou, em resposta enviada à Assembleia da República pelo Ministério das Infraestruturas e Habitação, que furtos de equipamentos de catenária, sinalização e telecomunicações estão a criar “constrangimentos acrescidos” no calendário de certificação da linha. A Infraestruturas de Portugal (IP) garante que os testes dinâmicos arrancaram em agosto e que o processo de certificação está “em curso”, mas o Instituto da Mobilidade e dos Transportes (IMT) afirma não ter recebido qualquer pedido formal de autorização para a entrada em serviço — e a IP não indicou quando prevê entregar esse processo nem avançou data para a inauguração. O que estava previsto para meados de 2026, depois para o início de 2027, aponta agora para o final desse ano.
Aos furtos e ao vandalismo soma-se um segundo obstáculo estrutural: a escassez de entidades acreditadas para a certificação ferroviária na Europa. A demora resulta da falta de organismos notificados em Portugal e da crescente afectação de empresas estrangeiras a processos semelhantes no âmbito dos investimentos ferroviários em curso em todo o continente — uma consequência directa do facto de toda a Europa estar simultaneamente a modernizar e a certificar novas linhas, sem que o número de entidades certificadoras tenha acompanhado o ritmo dos investimentos. Acresce ainda um requisito obrigatório de interoperabilidade: os comboios espanhóis têm de realizar testes na nova infraestrutura antes de a certificação poder ser concluída.
O que está em jogo vai muito além da ligação entre Évora e Elvas. Este corredor é considerado o projecto mais importante do plano Ferrovia 2020 e é estrategicamente fundamental para o Porto de Sines — o maior porto de contentores da Península Ibérica —, reduzindo em 140 quilómetros e 3h30 a distância percorrida pelos comboios de mercadorias entre Sines e o Caia. A longo prazo, a linha integrará o corredor de alta velocidade entre Lisboa e Madrid. Trata-se da primeira linha em Portugal capacitada para circulação a 250 km/h — e permanece fechada, com 460 milhões de euros imobilizados, enquanto a certificação se arrasta entre a burocracia, a escassez de entidades acreditadas e o vandalismo que danifica noite após noite uma obra que levou anos a construir.
