A planeada construção da Barragem da Foupana, localizada no Nordeste algarvio, está a enfrentar uma contestação veemente por parte da Plataforma para a Sustentabilidade e Biodiversidade do Algarve e Alentejo (PPSBAA). A associação ecologista aproveitou a fase de consulta pública do projeto, cujo prazo termina a 16 de outubro, para manifestar formalmente a sua oposição, alertando para os severos riscos ambientais da obra e rejeitando o modelo socioeconómico que esta pretende sustentar. Proposta pela Associação de Regantes do Sotavento do Algarve, a nova infraestrutura hídrica visa garantir o abastecimento e a expansão de um perímetro de rega com cerca de 8.600 hectares. No entanto, os ambientalistas avisam que a iniciativa irá acelerar de forma descontrolada a agricultura intensiva no sul do país, replicando um modelo agroindustrial cujos impactos negativos já são visíveis e fortemente criticados no Alqueva e no Litoral Alentejano.
Entre as maiores preocupações ecológicas apontadas pela plataforma destaca-se a submersão planeada de cerca de 18 quilómetros do ecossistema ribeirinho da Ribeira da Foupana, um curso de água considerado de elevadíssimo valor biológico. Este alagamento põe em risco imediato a sobrevivência de espécies aquáticas autóctones e ameaçadas, como o saramugo, o sável, a enguia-europeia e a boga-de-boca-arqueada. Adicionalmente, a barreira física e a alteração do fluxo de água colocarão em causa a integridade da Zona Especial de Conservação do Guadiana, afetando diretamente a conectividade ecológica e as rotas de alimentação de várias espécies terrestres e avifauna de grande porte, incluindo o lince-ibérico, o gato-bravo, a lontra, e espécies vulneráveis de aves como o bufo-real, o abutre-preto e as águias real, imperial-ibérica e de Bonelli. Os levantamentos efetuados na área terrestre identificaram a presença de 207 espécies de plantas — das quais 14 são raras, endémicas ou protegidas — e 145 espécies de fauna, incluindo 21 sob ameaça e 40 sob proteção legal, dados que corroboram as conclusões do próprio Estudo de Impacte Ambiental ao reconhecer danos significativos e irreversíveis para a natureza local.
Perante um cenário regional marcado pelo avanço da desertificação e por períodos de seca prolongada, a PPSBAA apela a uma mudança urgente de paradigma, sugerindo a substituição de culturas de regadio intensivo por plantações de sequeiro adaptadas ao clima mediterrânico. A organização critica também a vertente social deste modelo agrícola, que associa a uma forte dependência de mão de obra imigrante sujeita a baixas remunerações. Em alternativa à construção de novas albufeiras, propõe-se uma estratégia focada na eficiência hídrica que assenta na modernização urgente das redes de distribuição pública e agrícola para estancar as perdas de água, no reforço da reutilização de águas residuais tratadas em explorações agrícolas e campos de golfe, e na redução drástica dos consumos no setor agrícola, que atualmente absorve 57% de toda a água consumida no Algarve. Por fim, os ecologistas lançam reservas quanto à governação do projeto, questionando o facto de a Associação de Regantes do Sotavento do Algarve ser presidida por Macário Correia, que acumula o cargo com a liderança da AQUA SA, a entidade responsável pela execução da estratégia regional «Água que Une».
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