A expansão dos centros de dados em Portugal está a gerar uma forte onda de contestação por parte da Quercus, que exige ao Governo um travão imediato no investimento e total transparência nos processos regulatórios. Atualmente, o território nacional conta com 46 destas infraestruturas em funcionamento, localizadas maioritariamente nos distritos de Lisboa e do Porto. Contudo, o Governo revelou que o país poderá vir a somar mais 44 novos centros de dados, incluindo quatro complexos de grande dimensão, elevando o total potencial para 90 instalações espalhadas pelo país.
A associação ambientalista acusa o executivo de inverter as prioridades ao lançar o Plano Nacional de Centros de Dados para atrair investidores com a promessa de abundância de água e energias renováveis, sem antes criar as bases legais necessárias para proteger o território e as comunidades locais. Mariana Garanhão, técnica de políticas públicas da associação, sublinha que Portugal deve adotar um princípio de precaução e aprender com os erros de outros países europeus que agora enfrentam graves crises e são forçados a recuar nesta estratégia que visa alimentar a Inteligência Artificial.
Os principais riscos apontados pela Quercus dividem-se em várias frentes ecológicas e económicas, com o consumo massivo e a potencial contaminação da água na linha da frente dos perigos ambientais. O funcionamento destas megaestruturas ameaça também os solos agrícolas e florestais, altera profundamente a paisagem e agrava a crise climática através de emissões de gases com efeito de estufa que se preveem 57% mais elevadas do que as estimativas iniciais. Adicionalmente, as populações vizinhas correm o risco de sofrer com elevados níveis de poluição sonora e com o aumento da temperatura local provocado pelo calor dissipado pelos sistemas de arrefecimento por evaporação. No campo económico, o consumo elétrico gigantesco destas instalações ameaça sobrecarregar a infraestrutura energética nacional, o que, à semelhança do que já aconteceu na Irlanda e nos Países Baixos, poderá fazer disparar os preços da eletricidade na fatura das famílias. Mesmo quando estes centros utilizam eletricidade de fontes eólicas ou solares, a conversão de terrenos naturais em parques de produção energética acaba por destruir florestas autóctones e habitats locais.
Para mitigar estes impactos, a organização ambientalista propõe um conjunto de medidas urgentes que devem assumir caráter vinculativo na lei portuguesa antes que novos projetos avancem. No que toca à gestão da água, a Quercus exige a obrigatoriedade de sistemas de refrigeração de circuito fechado que não utilizem evaporação, o desenvolvimento de mecanismos de reutilização de águas recicladas e a proibição de instalação destas estruturas em regiões com escassez hídrica. Em termos energéticos, defende-se que as empresas recorram a energias renováveis produzidas nas suas próprias instalações já artificializadas e que assinem contratos de garantia de capacidade de rede por um período mínimo de 10 a 15 anos, assegurando que os custos de modernização do sistema elétrico não sejam imputados aos consumidores comuns.
Por fim, o plano de exigências inclui contrapartidas socioeconómicas severas, tais como o pagamento de uma contribuição anual para um fundo de apoio a consumidores vulneráveis e à transição energética, a cedência de parte do poder de computação a universidades e serviços públicos, e a criação de uma caução financeira obrigatória que garanta o desmantelamento futuro do centro de dados, a reciclagem total dos materiais e a reposição do terreno nas suas condições originais.
