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O BCE sobe os juros. E agora?

Em 10 de setembro, o Banco Central Europeu voltou a subir as taxas de juro para combater a inflação.
A lógica é simples: quando os preços sobem durante demasiado tempo, o BCE tenta arrefecer a economia. Juros mais altos tornam o dinheiro mais caro, reduzem a procura e ajudam a evitar que uma subida inicial de preços se transforme numa inflação persistente.
Mas pode a subida das taxas de juro resolver um problema causado pelo aumento do preço da energia e dos combustíveis? Não. Mas pode ajudar.
Os juros podem limitar a forma como um choque energético se propaga pela economia e evitar que a subida dos preços se alargue a outros bens e serviços, aos salários e às expectativas.
Mas não produzem energia. Não aumentam a oferta de petróleo ou gás. E não reduzem, por si só, a nossa dependência dos combustíveis fósseis.
Esse é o limite da política monetária.
E é aqui que entram as responsabilidades dos governos.
No imediato, proteger quem tem menos capacidade para absorver o aumento dos custos, através de apoios temporários e direcionados para quem mais precisa.
Ao mesmo tempo, reduzir a dependência energética do país: acelerar as energias renováveis, reforçar as redes elétricas e a capacidade de armazenamento, melhorar a eficiência energética e criar condições para que famílias e empresas possam investir em isolamento, eletrificação, painéis solares e bombas de calor.
Tudo isto exige investimento.
Onde o mercado, por si só, não chega, o Estado deve criar condições para mobilizar investimento público e privado, recorrendo também aos instrumentos financeiros da União Europeia e ao Banco Europeu de Investimento.
Os fundos europeus devem servir para acelerar esta transformação e reduzir a nossa vulnerabilidade energética, não para adiar o problema.
Estas medidas não substituem a política monetária.
Completam-na.
O BCE tem nos juros a sua principal ferramenta neste combate à inflação. Os governos têm outras: proteger quem é mais afetado, investir e reduzir a dependência energética.
Precisamos de estabilidade de preços hoje e de menor dependência energética amanhã.
E o Governo de Portugal?
O que está a fazer — e com que rapidez — para que o próximo choque energético encontre um país menos dependente?
Que investimento está a mobilizar? Que instrumentos europeus está a utilizar? E, sobretudo, que estratégia está a preparar agora, numa altura em que o PRR entra na sua fase final?
Porque esperar pelo próximo choque para começar a preparar a resposta será, simplesmente, chegar tarde. O próximo choque energético não vai esperar pela próxima legislatura.
“Ai, Portugal, Portugal. De que é que tu estás à espera?”

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