Uma ferramenta inovadora focada no bem-estar dos mais velhos acaba de ser reconhecida no panorama tecnológico nacional. A MILAE, uma plataforma conversacional criada pela startup portuguesa HoneCraft, conquistou o prémio Excellence in Data & AI 2026, destacando-se na categoria de Natural Language & Conversational AI. O galardão, atribuído em Lisboa pela Data Science Portuguese Association (DSPA) e pela GoingNext, colocou a startup ao lado de grandes referências nacionais de setores como a banca, os seguros e os transportes, que também viram os seus projetos distinguidos na mesma edição.
O propósito desta tecnologia ganha uma urgência acrescida face à realidade demográfica do país. Em Portugal, mais de meio milhão de cidadãos com 65 ou mais anos vivem em situação de solidão doméstica. Para além disso, os dados estatísticos revelam uma profunda exclusão digital: mais de um terço da população portuguesa entre os 65 e os 74 anos nunca acedeu à Internet. O cenário torna-se ainda mais crítico em regiões fustigadas pelo isolamento e pela desertificação, como o Alentejo, onde cerca de 27% da população é idosa — estabelecendo-se como uma das regiões com maior índice de envelhecimento do país — e onde 21,9% da população sénior vive de forma solitária. De acordo com os dados oficiais da GNR, existem 7.751 idosos sinalizados a viver sozinhos, isolados ou em situação de vulnerabilidade na região.
O problema ramifica-se pelo território alentejano com 2.749 idosos isolados no distrito de Beja, 2.621 no distrito de Portalegre e 2.381 no distrito de Évora. Numa altura em que o Estado avança a passos largos para a digitalização de serviços públicos, estas comunidades correm o risco de ficar totalmente isoladas.
Para quebrar esta barreira, a MILAE propõe uma abordagem onde a voz é o único requisito. Em vez de exigir computadores, ecrãs táteis, aplicações complexas ou pacotes de dados de Internet, o sistema recorre à forma de comunicação mais tradicional e acessível: uma chamada telefónica direta, seja para um telemóvel antigo ou para um telefone fixo. A tecnologia liga periodicamente para os utilizadores e inicia uma conversa natural e quotidiana, questionando sobre as rotinas básicas do dia, a alimentação, o descanso ou as visitas recebidas.
Esta solução funciona como um braço direito preventivo para a Administração Pública e para as autarquias locais, permitindo monitorizar milhares de seniores de forma regular. Caso o sistema identifique quebras na rotina, desabafos invulgares ou qualquer indicador de risco durante a conversa, emite um alerta automático para as equipas de ação social do município. Desta forma, os assistentes sociais conseguem otimizar os seus recursos e antecipar-se aos problemas, priorizando e dedicando tempo humano presencial a quem se encontra em situação de maior vulnerabilidade. O objetivo passa agora por expandir a rede de cuidados a mais territórios portugueses e criar parcerias institucionais que consigam dar respostas rápidas pós-chamada, como apoio domiciliário, transporte ou pequenas obras de acessibilidade nas habitações.
