Sines, no litoral alentejano, está prestes a tornar-se um polo industrial de relevância europeia com o anúncio de um investimento histórico por parte da empresa chinesa CALB (China Aviation Lithium Battery). A companhia, uma das maiores fabricantes de baterias do mundo, confirmou a decisão de avançar com a construção de uma fábrica de baterias de lítio no valor de 2 mil milhões de euros, com o arranque das obras previsto para o segundo trimestre de 2025. Este projeto, que será oficialmente lançado na próxima segunda-feira, 24 de fevereiro, em Lisboa, promete transformar a economia local e posicionar Portugal como um líder na produção de tecnologias verdes na Europa.
A nova unidade industrial, que ocupará cerca de 45 hectares na Zona Industrial e Logística de Sines (ZILS), terá uma capacidade inicial de produção de 15 gigawatts-hora (GWh) por ano, o equivalente a cerca de 187 mil baterias para veículos elétricos. Quando estiver totalmente operacional, em 2028, a fábrica poderá expandir-se para 45 GWh, rivalizando com as maiores instalações do género na Europa, como a gigafábrica da Tesla. Este investimento alinha-se com as metas europeias e nacionais de transição energética, respondendo à crescente procura por baterias de lítio, essenciais para a eletrificação do setor automóvel e para sistemas de armazenamento de energia.
Liu Jingyu, presidente do Conselho de Administração da CALB, sublinhou a importância estratégica deste projeto: “Este investimento em Sines faz parte da nossa estratégia de longo prazo, com um compromisso com a sustentabilidade, a inovação e o desenvolvimento do mercado europeu.” A escolha de Portugal, e especificamente de Sines, deve-se às vantagens logísticas do porto de águas profundas, à mão de obra qualificada e ao potencial económico do país, fatores que a empresa considera cruciais para o sucesso da operação.
O projeto da CALB é classificado como um Projeto de Interesse Nacional (PIN) pelo Governo português, refletindo o seu potencial impacto económico. Estima-se que a fábrica crie 1.800 empregos diretos, além de impulsionar a criação de empregos indiretos na região. Quando atingir a sua capacidade máxima, a unidade poderá representar mais de 4% do Produto Interno Bruto (PIB) nacional, superando até mesmo o contributo da Autoeuropa, a maior fábrica automóvel em Portugal.
Para além do impacto económico, a fábrica reforça o papel de Portugal na cadeia de valor europeia das baterias, um setor crítico para a redução das emissões de gases com efeito de estufa e para a independência energética do continente. A CALB planeia adotar uma estratégia de aprovisionamento mista, combinando fontes globais e locais para garantir uma cadeia de fornecimento sustentável e resiliente, com o mercado europeu como principal destino da produção.
Apesar do entusiasmo em torno do projeto, a sua implementação não está isenta de desafios. O licenciamento ambiental, concluído com uma Declaração de Impacte Ambiental favorável em 2024, foi condicionado a mais de 90 medidas de mitigação e compensação. Entre as preocupações levantadas durante a consulta pública, que contou com a oposição de alguns cidadãos, destacam-se o abate de cerca de 410 sobreiros e o elevado consumo de recursos hídricos numa região já afetada por escassez de água. Para mitigar estes impactos, a CALB comprometeu-se a utilizar energia maioritariamente renovável — através de projetos locais ou acordos de compra de energia (PPA) — e a implementar um plano de arborização compensatória numa área de cerca de 42 hectares.
A chegada da CALB insere-se num contexto de crescente interesse por Sines como hub industrial. Nos últimos anos, a região tem atraído projetos de grande escala ligados à energia e à transição verde, beneficiando da sua localização estratégica e da infraestrutura portuária. Este investimento de 2 mil milhões de euros é visto como um dos maiores de capital estrangeiro em Portugal nas últimas décadas, consolidando a confiança de investidores internacionais no país.
O lançamento da primeira pedra da fábrica de Sines, com a presença do ministro da Economia, Pedro Reis, e de Liu Jingyu, marca o início de uma nova era para a economia portuguesa. Mais do que um projeto industrial, a iniciativa da CALB representa um compromisso com a inovação e a sustentabilidade, colocando Portugal na vanguarda da revolução energética europeia. Resta agora acompanhar a execução deste ambicioso plano e os seus efeitos a médio e longo prazo, tanto para a região de Sines como para o país como um todo.
