A histórica lacuna no apoio à primeira infância em Mourão tem os dias contados com a abertura, prevista para setembro, da nova Creche Municipal de Mourão, um equipamento direcionado para crianças entre os quatro meses e os três anos. Este projeto assume particular relevância à luz dos dados do Instituto Nacional de Estatística (INE), cujos resultados do último Censos revelam que Mourão registou uma perda populacional de 11,6% na última década, fixando a sua população residente em 2351 habitantes. Num cenário de acentuado declínio demográfico e envelhecimento no Alentejo, a criação desta infraestrutura torna-se uma prioridade estratégica crucial para tentar fixar jovens casais e reverter a tendência de esvaziamento do território.
O projeto, que representa um investimento de cerca de um milhão de euros, resulta da ampliação e modernização do atual Jardim de Infância local. Com capacidade para acolher 42 crianças, distribuídas por berçário e salas de atividades, a valência pretende dar resposta direta às necessidades de conciliação entre a atividade profissional e a vida familiar. Oficialmente, Mourão carregava o estatuto singular de ser o único município do país totalmente desprovido de qualquer resposta social ou rede de apoio institucional para esta faixa etária.
A nível regional, a infraestrutura destaca-se pelo seu caráter pioneiro: será a primeira creche com gestão pública direta por parte de uma autarquia no distrito de Évora. Isto significa que a equipa municipal assumirá a responsabilidade integral pelo quotidiano do espaço, gerindo desde a contratação de profissionais e organização pedagógica até ao fornecimento de refeições e materiais estruturais. O enquadramento legal e as normas de utilização deste novo serviço foram salvaguardados através de um regulamento aprovado em sede de Assembleia Municipal no final de 2025, com posterior publicação oficial em Diário da República no início de 2026.
Para mitigar o impacto financeiro nas famílias locais, a Câmara Municipal de Mourão anunciou que assinará já na próxima semana um protocolo com a Segurança Social. Este entendimento formal, desenhado sob as diretrizes do programa nacional “Creche Feliz”, irá assegurar a total isenção de mensalidades para as crianças abrangidas. De acordo com os responsáveis locais, a prioridade vai muito além da edificação de paredes, focando-se na criação de condições socioeconómicas reais para que as novas gerações encontrem no concelho um local atrativo e viável para planear o seu futuro familiar.
A análise da população mais jovem do município revela que a nova creche pública surge num momento em que a retenção da infância é uma prioridade demográfica urgente para Mourão. Com base nos dados do Instituto Nacional de Estatística (INE), o concelho de Mourão contava, no último Censos, com menos de uma centena de crianças na faixa etária dos 0 aos 4 anos, o que representa apenas cerca de 3,5% do total da sua população residente. Este valor coloca o município numa posição de vulnerabilidade abaixo da média do distrito de Évora, onde as crianças dessa mesma faixa etária representam aproximadamente 4,2% dos habitantes.
No panorama regional, onde a cidade de Évora e concelhos mais industrializados como Vendas Novas concentram a maior fatia de população jovem devido à oferta de emprego e serviços, Mourão detém uma das quotas mais reduzidas de infância de todo o distrito. Perante este cenário de acentuado declínio e envelhecimento, os 42 lugares disponibilizados pela nova creche municipal ganham uma dimensão ainda maior: a infraestrutura tem capacidade teórica para acolher uma percentagem massiva da atual população em idade pré-escolar do concelho, constituindo uma resposta direta e agressiva para travar a fuga de casais jovens para os maiores centros urbanos da região.
Imagem de capa, João Fortes, presidente da Câmara Municipal de Mourão.
