5 Janeiro 2019      12:04

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I. O início

No meio de um suspiro sôfrego, meio desencantado com a situação que se tinha instalado, Amaro levantou-se do colchão duro que o incomodava ostensivamente e inclinou-se na cama.

O colchão da pensão era de molas. Teriam mais de cinco anos e passava-lhe pela ideia quantas pessoas por ali teriam passado. Quantos seres como ele teriam deixado o suor cravado naquela amostra de sítio onde punham as pessoas a dormir . Ao mesmo tempo, tentava não pensar muito nisso. Era difícil e asqueroso imaginar que o lugar onde adormecia e deixava o corpo à mercê fosse do que fosse, dos mosquitos que teimavam em fazer uma sinfonia durante toda a noite em volta dos seus ouvidos, dos ácaros que lhe entrariam pela pele nela se instalariam, causando-lhe escabiose, a temível sarna humana. Era médico.

 Considero-o um tipo normal, ou melhor, sempre o tinha considerado assim. Mesmo que não fosse, era meu amigo e isso fazia dele um tipo normal. Tantas vezes tínhamos bebido copos juntos, almoçado na mesma mesa, no mesmo restaurante à beira-mar. Isso não fazia de nós imediatamente amigos, nem faz de ninguém amigo. No mínimo, conhecidos porventura. Mas isto não interessa nada. A minha relação pessoal com o Amaro não vem ao caso.

Amaro casara muito novo, ainda com os seus 22 anos. Conhecera aquela que passou a ser sua mulher na Faculdade de Medicina. Enamoraram-se e casaram pouco tempo depois. Não que ela tivesse engravidado prematuramente mas porque  viram nisso vantagem, em termos de divisão de despesas e benefícios fiscais. O primeiro filho nasceu dois anos depois, já os dois tinham terminado a faculdade e eram médicos. Nasceu um rapaz. Tinha as feições da mãe e partes do corpo do pai. Amaro continuava apaixonado. Sei, porque me disse.

Dois anos depois, nasceu outro rapaz. Este tinha quer as feições  quer o corpo do pai. Ambos, como em qualquer caso, imagino, é sempre uma felicidade para os pais. Será estranho se assim não for, mas coisas estranhas sempre acontecem. Não vamos por aí.

Amaro continuava sentado na cama. Iluminava-o apenas uma luz tímida de um candeeiro de mesa de cabeceira empoeirado. As paredes do quarto precisavam também elas de uma séria remodelação. Pela cabeça do meu amigo passavam as coisas mais estranhas. A sua vida tinha-se transformado numa série de eventos esquizofrénicos que pareciam tirados de um filme ou de um romance. Não é o caso. Aconteceram todos, em sequência.

Tentará, nos momentos que separam a primeira da última das palavras que compõem este texto, levantar-se várias vezes, todas inúteis. Amaro tinha a cabeça mais pesada do que todo o corpo. Não devia ser assim. Anatomicamente, não é possível. Embora, e porque já o conheço há muitos anos, desde a escola, lhe chamassem o cabeçudo. Este aparte é irrelevante, próprio de um narrador que tem a mania que sabe tudo e que vai contar uma história que deixará o leitor em suspenso. Tentativa falhada de humor.

Amaro nunca tivera sentido de humor. Pecara sempre por ser o mais calado e o mais sério de todos os rapazes com quem convivia. Eu era o mais jocoso de todos. Talvez por isso me tenham dado a tarefa de vos contar Amaro. Talvez por isso sempre nos tenhamos dado bem e falado sobre as coisas mais ridículas de forma séria e ponderada.

O Amaro que eu tinha conhecido era ponderado. Nada do que fazia escapava ao afinado escopo da sua cabeça. Enquanto médico, ultra concentrado sempre que recebia um doente. Lembrava-se do nome de cada um deles, sempre que o visitavam mais do que uma vez. Confessou-me como fazia. Partilhou comigo o truque. Memorizava da pessoa a peça de roupa que vestia nesse dia e atribuía-lhe o nome. Assim eram as calças Romão, sapatos Martins, camisa Silva, chapéu Pereira. Não tratava ninguém pelo primeiro nome. Amaro sempre achara que o que conferia identidade era o ou os nomes de família.

Chamava-se Marcelino Amaro.

Tentou, de novo, levantar-se daquele colchão imundo e desenhado pelas molas.

A pensão não era em Portugal e ninguém sabia onde estava.

 

(continua)

 

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