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literatura

Crónica literária começada com A

Hoje começa o alfabeto, hoje começo com a letra A e falarei das palavras belas que existem iniciadas por essa mesma letra. Ela serve para tanta coisa. Serve para articular, serve para iniciar e acabar e serve para interjecionar o mundo. Comecemos então por aquele nome começado pela primeira letra e que para muitos terá sido o nome do primeiro homem. Tenha sido ou não, surge como um marco na vida de tanta gente. Pelo, menos assim é na minha vida, considerando que o meu sobrenome é Adão.

O ovo quadrado

 

O ovo nasceu, no dia 10 de agosto, orgânico. Isto é, saiu da parte traseira da galinha nesse mesmo dia, mas esse ovo era um ovo diferente. Em vez de ser oval, o ovo era quadrado. Posso imaginar o esforço da galinha a por aquele ovo.

A mãe achou aquilo estranho, olhou e fez um daqueles barulhos que as galinhas fazem, e abanou a cabeça em jeito de espanto. Nunca tinha visto e muito menos posto um ovo de semelhantes características. Aquele ovo era diferente, era quadrado! Achais vós que não há ovos quadrados? Este era.

O homem a quem todos os cães mordiam 

Tinha nome de gato, Felix. Ainda hoje não se sabe ao certo mas talvez fosse por isso que todos os cães o mordiam. Cada vez que passava perto de um cão não se escapava sem levar uma ferroada do canino, fosse qual fosse a raça. Dias havia em que até os pincher o atacavam. Outro dia, um pachorrento de um cão que dormia o sono dos justos agarrou-se-lhe à pele de forma tal que lhe deixou marcada a forma dos dentes e vai ficar cicatriz.

Casca de Limão

O local onde se passa a nossa crónica de hoje é um pântano, onde em vez de água pútrida, havia sumo de limão apenas. Incrível, não é? A possibilidade de tal acontecer, de tão remota, deixava todos boquiabertos. O motivo de aquilo ocorrer era um mistério, porque tão perto não havia qualquer sinal de limoeiros nem limões.

O relâmpago

Naquele tempo, quando os ventos andavam pelo Mundo e ainda tinham corpo físico, quando a chuva tinha a forma gasosa e só acariciava levemente as plantas, os rostos dos animais e as terras do mundo. Naquele tempo, quando ainda não havia seres humanos nem casas, os elementos naturais viviam ainda em livre vontade e eram como que espíritos e pessoas que navegam pelas terras do mundo, ao sabor da natureza.

Dente por Dente

O nome da clínica era Dente por Dente e ficava duas ruas acima do lugar mais perto do fim da vila. Ele, um dos sócios, tinha-se tornado dentista muito novo, quando terminou o curso. Era um dentista dedicado que só trabalhava com a mais pura das certezas. Não usava a broca nos dentes dos clientes se resquício algum de infeção pudesse haver.

A sua sócia era bastante mais descontraída, porém especialista em coroas e implantes de titânio. A trabalhar para eles tinham ainda um higienista oral.

Não faltava nada no Dente por Dente! Até os preços eram imbatíveis.

Grãos de areia

Esta é a história verdadeira do homem que de decidiu contar os grãos de areia, um por um, da praia que ficava perto da casa dele. 
Zé Fagundes sempre tinha sido um homem de princípios. Sempre tinha sido obcecado por um motivo, por uma tarefa. Cada momento da sua vida era regido por uma tarefa a terminar, um obstáculo a ultrapassar, algo a fazer.

Corta-unhas

Discutiram ostensivamente os dois. Cada um parecia ter a razão do seu lado. Cada um queria ter a razão do seu lado. Infelizmente nenhum deles a tinha. Tinham sido um casal feliz até esse momento. A partir daí tudo começou a piorar. Quem imaginaria que tão inocente e útil utensílio teria esse efeito. De facto, nada assim o suporia mas teve.

Ela, acabada de acordar, ainda com os olhos meio fechados e com o cabelo semelhante àquele de quem acabara de ver um lobo, sai da cama, ainda ele dormia. Não deu por nada.

As palavras que as pessoas não disseram quando a chuva veio e estragou o penteado da senhora

Era sábado e o dia tinha começado com o nascer do sol, como sempre. A pessoa que será o centro da nossa história estava fora de casa, apanhando um pouco de sol. Admirava as plantas que tinha semeado ela própria, passava o resto do protetor solar e não lamentava viver sozinha. Joana sabia o que lhe tinha custado chegar onde chegou a meios próprios. Ninguém tinha ideia do que custaria chegar àquele ponto. A mulher mais rica da aldeia toda. Só a casa principal tinha uns 20 quartos e uma empregadagem de 10 serventes. Joana tinha criado um império e era solteira.

Vento Levante

Dias havia em que o vento soprava de forma tal que ninguém na aldeia dormia. Aterrorizados com aquele vento e sabendo o que significava andavam todos meio loucos, se ao medo podemos chamar loucura.

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