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literatura

Não é louco?

Não é louco? Como o tempo passa tão depressa e eu permaneço sentada nesta pedra que tanto marca a minha pele? Não é fascinante? Como o céu continua com o seu azul mais clarinho, embora as minhas emoções demostrem o contrário. Não é de outro mundo?

Decidi levantar-me.

O vento dança com o meu cabelo e deixo-os caírem num amor profundo. Os meus pés estão enterrados na terra e um castanho molhado com uma textura não agradável agarra o meu pé como eu te agarrava a ti.

Não é louco?

O espelho ficou em casa, eu não

Caro diretor e queridos leitores, 

Deixei o espelho em casa sem que ele tivesse que refletir ninguém, mas certamente estão acontecendo muitas coisas dentro dele, que saberemos quando voltarmos, dentro de alguns dias.

Eu precisava de viajar, não de fazer turismo.

O viajante é um peregrino não religioso.

A curiosidade que o move é respeitosa.

Ele quer fazer parte de algo que procura.

Ele também quer que seja uma jornada para dentro de si, para dentro do que ele já foi ou que gostaria de ser.

Ele quer ser mudado pela viagem e, por isso, vai.

Era uma vez uma couve que queria ser alface...

Era uma vez uma couve que queria ser alface porque o tempo é mais ameno no verão, mas que enquanto semente se enganou e acabou longe de casa a ser comida por um esquilo.

O conto de um sapato que fugiu...

O conto de um sapato

que fugiu

do

dono

a sete

pés

e perdeu o

irmão gémeo

Apanha da azeitona

Costuma ser em Novembro

mas tudo é uma questão de tempo.

Tudo tem o seu tempo;

se ainda assim fores com pressa

e provares uma por teimosia,

o paladar chamar-te-á a atenção:

— Anda daí que ainda não é dia!

 

Ah! sempre que chega o dia

— Que preguiça, preguicite, que soneira!

só te apetece ficar a observar

os homens e as mulheres de varapaus nas mãos

sovando a pobre da oliveira.

 

Os oleados no chão

são lenços que amparam as lágrimas;

gotas

       que

A concentração

Há demasiadas distrações no nosso dia e na nossa vida. As coisas acontecem e repetem-se distraindo-nos do essencial. Esse mesmo que nos não sabemos qual é nem o que é. Há coisas e momentos que se cruzam connosco e que não conseguimos decifrar. A concentração é fundamental para chegar ao momento em que o resultado do movimento chega ao final sem ter intermédios.

Reencontro

Conhecer lugares

conquistar o mundo

ser dono de tudo

descansar deitado

para sempre

— ser nada.

 

quando te olhei

estavas sentado — esperando —

e nesse gerúndio,

do teu lugar que é meu,

apenas me resta a chaminé

que perfumou para sempre

as ruas da minha infância.

 

Nada pode tirar

o que a vida deu.

 

Pode-se ser feliz

onde nunca se foi.

 

Conhecer lugares, conhecer lugares e mais lugares!

 

A hesitação

Não sei bem como começar este texto. Há várias possibilidades de se iniciar alguma coisa e cada uma delas pode ter desfechos diferentes. Não sei se devo iniciar um texto definido e cujo tema já está definido, ou se devo prosseguir uma linha de pensamento que não está ainda bem definida, mas que me permitirá seguir por caminhos abertos. Não sei o que fazer. A dúvida e a escolha acompanham qualquer processo criativo ou decisões práticas diárias.

O barulho

É ensurdecedor. Demasiado grande o ruído que se ouve daqui e de além. Não se consegue ouvir nada mais além de um burburinho que é algo que cresce e se torna insuportável.

O barulho faz parte da nossa vida. Na morte certamente já não o ouviremos mas ele continua ao nosso redor. Até na sepultura o barulho incomoda os cemitérios. Não que alguém se queixe, mas há um ruído que dura e perdura em cada uma das entradas e saídas de uma casa sem vida.

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