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literatura

Oh, sol

O sol está amarelo. O sol está a queimar-me. O sol está a puxar-me para a felicidade. O sol pretende desenhar um sorriso na minha face que suplica tranquilidade.

Sinto que o sol é meu. Sinto que o sol vive para mim.

O sol de fevereiro abraça-me no abraço mais acolhedor que conhecera desde o fevereiro passado. O sol de fevereiro canta para mim.

Mas, chega de anáforas. A luz que o sol pinta não passa de uma ilusão.

Meu futuro amante, perdoa-me. Não confies no meu coração.

O céu está nu e desenho as minhas desculpas nele.

Uma família de papagaios

Era uma larga família de papagaios, uma família tão comum como qualquer outra família, só que esta era de papagaios. Eram o papagaio, a papagaia e os papagaios pequeninos que somavam na totalidade, dez. Era uma família numerosa de 10 pessoas.

Através de fantasias duradouras

O habitante no espelho permanece teimosamente mudo.

Vejo algo no seu rosto, apenas uma ruga de sobrancelha ou do lábio inferior, que tem um sabor irónico, quase divertido. Quanto à natureza do meu hóspede, como já escrevi várias vezes, estou cada vez mais inseguro, mas não tenho dúvidas quanto à sua presença real e à sua atenção constante para mim.

As formas de sonho do Maleão

Maleão era um nobre distinto que viveu há mais de duzentos anos. Numa terra quente e húmida, que mais tarde, muito perto dos nossos anos, se viria a reconhecer como tropical, nasceu num berço aristocrático e recusaria, na idade adulta, a ser tratado por menos nível do que a sua raiz nobre merecia.

Ó mãos que beijam a terra

Ó mãos que beijam a terra

na fértil esperança da semente efémera!

Fostes feitas para trazer do futuro

as rugas que o tempo espera.

As rugas que o tempo espera

são lágrimas que o suor ampara.

Ó mãos que beijam a terra,

deixai para trás a miséria,

brindai pela paz,

(a fartura é inimiga da guerra).

Ninguém vos pode vencer!

As mãos que beijam assim

são livres de escolher.

— Dá-me a tua mão;

se quiseres,

juntos seremos a terra

que mais ninguém quis ser.

 

Hipótese

Era uma vez uma hipopótamo. Grande. Enorme. Uma hipopótamo que não sofria de hipotermia porque vivia em África, isto é, numa parte quente. Hipopótamo era filho de pai chamado Hipo e mãe chamada Potema.

Nunca soube muito bem porque lhe tinham chamado aquele nome mas isso não lhe fazia diferença. A vida em África era calma, tirando aqueles momentos em que vinham homens brancos e traziam umas coisas que atiravam outras e isso era muito mau, porque dizimaram toda a família de Hipopótamo.

Todo mundo tem o diabo que merece

Não comprei novos espelhos na Amazon, nem noutro lugar. Foi uma piada. Depois de quase 20 anos encontrei, no sótão, um espelho da minha casa anterior; limpei-o e agora está pendurado na casa de banho do rés-de-chão. Depois de alguns dias, o mesmo tipo que falava comigo no espelho no andar de cima, começou também a aparecer aqui, embora, até ao momento, tenha permanecido em silêncio porque está ressentido pela minha piada anterior.

As pequenas coisas na vida de uma baleia

No meio do oceano, lá muito longe nas profundidades, vive uma baleia. Sóbria, inteligente, a baleia é um ser delicado que, como todas as outras baleias, depende do seu grupo para viver e sobreviver.

A baleia é um animal grande, de porte espadaúdo, mas tem sentimentos. Muitos sentimentos. Esta baleia era um ser fascinante, como fascinantes são as palavras, as ideias e aquelas imagens que criam na nossa cabeça.

Não sabemos muito sobre baleias. Sabemos que são seres mamíferos como nós.

Contágio

O contágio começa

quando nos deixamos

contagiar;

e a vida

em todos os seus dias

é um conjunto

de epidemias.

 

Não há como fugir.

É lavar as mãos

contra quem nos quer mal

e é abraçar,

apertar

e beijar

quem queremos amar.

 

Imagem de irishtimes.com

Carta a uma girafa

Querida Girafa,

Ando há meses pensando em como te escrever estas palavras. Na minha ideia, é preciso coragem para, finalmente, te dirigir breves linhas que sei que talvez nem vás ler. Porém, é importante e obrigatório que as escreva.

Certamente sou alguém absolutamente desconhecido para ti. Nunca tive a coragem de te dirigir a palavras certas. E por isso me calo cada vez que passo por ti e cada vez que nos cruzamos. E por isso desvio o olhar. Há algo em ti que fez nascer algo em mim e me ajudou a ver a savana de outra forma. Bem, ajudou-me a abstrair do capim.

 

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