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José Carlos Adão

O enunciado

Eram 8:00, 8:30 da manhã quando chegaram ao local de aplicação, num lugar qualquer deste mundo, numa qualquer disciplina, num qualquer nível de ensino.

As nossas crianças e adolescentes passam todas, como todos nós passamos, por momentos de teste. Somos testados a cada momento e em diferentes aspetos da nossa vida. As relações testam-nos, a família testa-nos, a escola, o trabalho, os amigos, a estrada, os reflexos, os jogos. Tudo é um teste mais ou menos convencional.

Momentos especiais

Falar sobre momentos será um dia como falar sobre o eterno. Não que os momentos sejam eternos. Não o são e certamente nunca serão eternos porque são a antítese da eternidade. Os momentos, sejam bons ou maus, são únicos. E que assim sejam e que continuem a ser para os que os vivenciam e aproveitam ou sofrem sejam abençoados nesse momento.

Cada momento na vida de cada um de nós torna-se especial, torna-se único. Talvez por isso celebremos os melhores momentos da nossa vida. Dos momentos menos bons ou maus não queremos memória.

A geração que virá depois

Somos feitos de carne, de osso, de músculo, de nervo, de água, de sangue, de uma combinação tão quase perfeita que seria quase impossível descrever num tão curto texto todas as características que nos compõem e que nos marcam.

Todos os elementos foram criados e conjugam-se de forma admirável. Todos os elementos começam de forma quase invisível, vão crescendo, amadurecem e envelhecem até ficarem como pó na terra que os vi nascer.

A escada

Subiu, subiu, subiu. Quando pensava que ia começar a ver o fim da escada, eis que as nuvens se sobrepunham e tapavam tudo. A escada, assim, parecia não ter fim. Talvez a nossa personagem procurasse algo que não tem fim, algo que não termine e seja só interrompido por uma camada densa de nuvens que dão a ideia de se ter chegado ao céu. O paraíso fica depois das nuvens que o escondem.

Um parafuso a menos

Último dia de primavera, quase altura de começarem as férias do verão, depois de um ano muito cansativo de trabalho, Loitão tinha tudo pensado para essa nova fase do calendário gregoriano. A sua vida poderia ser diferente ou ser completamente igual ao que era até aí. Dependia só daquilo que pudesse acontecer no tempo intermédio. Loitão era um homem trabalhador e muito esforçado. Dedicava-se inteiramente ao seu trabalho e a sua vida pessoal e familiar reduzia-se a quase zero, uma vez que não tinha nenhuma há muito tempo.

O pescador e as ondas

Era uma vez um mar muito azul, que se prolongava de uma costa distante até ao lado de cá, onde se acreditava tão longe o lado de lá, como nesse lado achavam este. Duas visões e percepções distantes e idênticas. Neste lado, o mar era mais azul quando visto do céu. As tonalidades que o preenchiam transmitiam a ideia de paz e imensidão. A alma precisa tantas vezes de azul para se acalmar, da mesma forma que precisa de verde quando busca a esperança para se aconchegar.

Redor

Redor. Ao redor. Aquilo que nos rodeia. O círculo que se forma em torno de nós e daquilo que pensamos. As redondezas significam sempre algo que está próximo de nós e tem, positiva ou negativamente, influência no nosso bem-estar, no nosso comportamento, no olhar que mudamos para ver mais longe, ou mais perto…

O redor molda-nos e molda aquilo que vemos. Hoje em dia, pouco interessa o redor que pode contribuir para a verdade. Tantas vezes, embora os nossos olhos vejam e testemunhem a realidade, dir-nos-ão que o redor não é o redor e aquilo que vemos não é real.

O espaço entre as árvores

Viajo de comboio. Sentado no meu assento, percorro as diferentes terras, as diferentes casas escondidas atrás das árvores e além do arame que separa a linha do resto do mundo.

Vejo-me no espaço entre as árvores, através de um vidro meio empoeirado.

O facto de viajar de comboio, numa linha quase recta sem sobressaltos faz-me olhar, concentrado, para o espaço entre as árvores, para o que me foge da vista e não se deixa apanhar pela minha retina. Não me é possível focar num só elemento, nem guardar na memória tudo aquilo que passa por mim, ou melhor, aquilo por que passo.

Murmúrio

Na hora em que os sinos tocam cronometrados com as luzes claras e com as luzes escuras, o dia deixa de o ser e passa a ser noite. É a transição que maravilhosamente ocorre todos os dias. Em vários pontos do globo, a transição acontece, sem que nela se conste haver um interregno vincado. A noite subtilmente sobrepõe o dia e nesse momento em que se transformam, as coisas soltam murmúrios e esses murmúrios são o sol do interior de cada objeto.

O elefante que se escondia numa caixa de fósforos

Nas planícies do Alentejo, douradas e extensas que por vezes nos poderão parecer semelhantes à deslumbrante savana africana. Não poucas vezes nos confundimos com as árvores solitárias e aquilo que poderia ser um prolongado silêncio no continente vizinho.

Deslumbrante, a planície alentejana reúne muitos dos traços da savana. Salvos raras existentes e tantas outras, também elas raras exceções, não existem no Alentejo os animais da savana. Será possível encontrá-los, porém em locais restritos e muito circunscritos.

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