Uma associação de defesa do património da cidade de Évora chamou a atenção para a degradação da fachada e da cobertura da Igreja da Graça, edificada durante o século XVI e vista como um “monumento ímpar” de arquitetura renascentista da cidade alentejana.
“Há cerca de 10 anos que estão identificadas algumas patologias e é preciso uma intervenção, porque a degradação vai descarnando as esculturas dos atlantes”, revelou Marcial Rodrigues, presidente do Grupo Pro-Évora, em declarações à agência Lusa.
Situada no centro histórico, perto da Praça do Giraldo, esta igreja é propriedade do Estado e está afeta ao Ministério da Defesa Nacional, tal como acontece com o Convento da Graça, local onde funciona atualmente a messe de Évora do Exército.
A Lusa fez chegar ao Exército, por correio eletrónico, diversas questões sobre este edifício, mas até ao início da tarde de ontem, segunda-feira (06), ainda não tinha recebido qualquer resposta.
Marcial Rodrigues sublinhou, também à Lusa, que um dos problemas da igreja se encontra na fachada, designadamente nos quatro atlantes, popularmente chamados de “meninos da Graça”.
“As argamassas vão saindo e as pedras vão ficando descarnadas”, o que significa que “os elementos que as unem vão desaparecendo e há já muito tempo que se veem os ferros que suportam os meninos da Graça”, notou.
De acordo com o presidente do Grupo Pro-Évora, os restantes danos na igreja encontram-se na cobertura e também no sistema de escoamento das águas pluviais, com a presença de infiltrações.
“Estes problemas têm que ser atendidos, porque, à medida que o tempo passa, vão-se agravando”, salientou, lamentando que o Estado não proceda a “uma intervenção regular de manutenção e preservação deste tipo de imóveis”.
Quando questionado acerca da possibilidade da existência de perigo de queda de elementos da fachada, o presidente da associação de defesa do património afirmou não acreditar que esse cenário se verifique. Ainda assim, completou, “é sempre um risco”, tendo em conta a degradação contínua das condições da igreja.
“Desde que foi extinta a Direção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais [em 2007] que não há, da parte do Estado, uma intervenção regular de manutenção e preservação destes imóveis e só em situações periclitantes é que há intervenção”, frisou.
O responsável revelou também que o Exército está a elaborar, juntamente com outras entidades da cidade, uma candidatura a um programa do Turismo de Portugal, de forma a conseguir financiamento para a realização de obras no imóvel.
A cidade de Évora “ocupou um lugar ímpar no renascimento português”, período do qual faz parte a Igreja da Graça, defendeu a associação.
“Foi projetada pelo arquiteto da Casa Real Miguel de Arruda, tendo colaborado no projeto o escultor Nicolau de Chanterene e, muito provavelmente, o humanista André de Resende”, detalhou.
A construção do conjunto da Igreja e Convento de Nossa Senhora da Graça ocorreu entre os anos de 1536 e 1546.
De acordo com a associação, “as esculturas que compõem a fachada, exemplo único na arquitetura nacional da época, correspondem às primeiras manifestações do maneirismo em Portugal, alinhadas com a melhor reinterpretação da arquitetura e iconografia romanas”.
“O reconhecimento do valor cultural e do interesse histórico e arquitetónico desta igreja ficou bem patente na precocidade da sua classificação, pois foi um dos primeiros imóveis a ser classificado como Monumento Nacional (decreto de 16 de junho de 1910)”, concluiu.
Fotografia de observador.pt
