19 Janeiro 2020      09:39

Está aqui

Era uma vez uns tipos comuns liderados por um tipo singular.

Enquanto banda que fez (conseguiu fazer) da longevidade uma forma de estar, alternaram entre o bom e o muito bom durante quase 20 anos. Mas, há sempre uma mas, e este é um mas que sabe maravilhosamente, houve um instante em que foram superlativos. Instante que equivale a um álbum: Different Class – corria ano de 1995, por essa razão um dos mais belos anos do senhor que está algures lá em cima. Não está, mas é como se estivesse.

Num primeiro momento (instruídos a não ler as letras enquanto escutamos as canções, logo a ouvir antes de compreender), somos levados a pensar em cenários líricos mais adequados aos finais do século XVIII do que à Sheffield em queda do período pós-Thatcher, de onde são originários e que nunca abandonaram. A batida é alegre e o ritmo é como que uma palpitação juvenil sedenta de cores fortes. Depois, o mistério adensa-se numa sequência que não é lógica, mas faz por ser pertinente (não sendo o inglês a nossa primeira língua, é a outra, a amante favorita): é possível que não fale de outra coisa que de pessoas simples e jovens cujos pais já perderam os sonhos (poucas cidades se assemelham tanto a um sonho que se esvaiu como Sheffield).

É possível, até, a um certo olhar, que estas sejam algumas das mais, como dizer,…pungentes canções que já ouvimos, sobre, como se viu, a mais desencantada das cidades.

Cenário dúbio, pois contradiz em absoluto o ritmo feérico que explode mais intenso a cada canção durante a primeira metade do disco.

A segunda metade do disco esclarece: é uma carta de amor a Sheffield da única forma possível de expressar amor por uma cidade como aquela. Com toda a honestidade, que a palavra só muito raramente é ambígua quando inserida num todo contínuo. Com o máximo de ritmo possível, estímulo de néon, teatro imune a horrores, que o sonho é indissociável do jovem, e este não se perde sem antes se entregar física e mentalmente a todas as emoções à disposição.

"And I said let's all meet up in the year 2000

Won't it be strange when we're all fully grown

Be there 2 o'clock by the fountain down the road

I never knew that you'd get married

I would be living down here on my own

On that damp and lonely Thursday years ago

Do it

Oh yeah

Oh yeah"

O cérebro que controla é um tal de Jarvis Cocker - cujo binómio imagem+atitude não podia ser melhor metáfora de tudo o que se disse antes.

 

Imagem de radarlisboa.fm

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