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A canção pop perfeita…

Por mais voltas que o pobre e belo mundo venha a dar dificilmente se poderão definir (ou melhor, circunscrever) as razões que levam uma canção pop a ser considerada perfeita. Não com a certeza pós-primitiva que é apanágio dos justos. Canção pop perfeita – Ui! Plim plons plim plons numa sequência subjectiva como que a levar-nos pela mão ao altar da mestria absoluta em pouco mais de três minutos. É o impraticável tornado viável, apesar de tudo? Singularidade que apenas interessa aos “náufragos do fim dos tempos” – aos que restam (sim, refiro-me a nós).

Jean Claude Brisseau e Henry Miller

Apontamento sobre o cineasta Jean Claude Brisseau (com um piscar de olhos ao perverso mais sincero – apetecia dizer singelo – que este mundo alguma vez conheceu: Henry Miller)

Um atraso estruturante

(O atraso mental estruturante) – (ou a perturbação e pele de galinha) – (ou o empreendedorismo híper-democrático versão youtuber):

 

Encontro de alienígenas – Sábado à noite –

Será que por uma vez podemos dizer que vivemos tempos estranhos sem incorrer num óbvio e recorrente exagero? Sim, podemos e devemos dizer que sim, afinal o caso é extremo.

Deste Lado da Ressurreição

Deste Lado da Ressurreição (um filme instável e potencialmente falhado (dito como elogio) de Joaquim Sapinho):

O título é enigmático e predispõe ao sorriso expectante. Também pelos vestígios do (ainda assim não muito) que se leu sobre o assunto. Começa – e começa bem. O contraponto de silêncios entre o interior / entrada do cenóbio e as sequências de surf. Silêncios? Expressão talvez equívoca. Interiores, representações de fé, céu, mar, debaixo de água, depois um grito que naquele ponto já sabe a pouco. As imagens são, de igual modo, dispares, ou de grande ou de recôndita beleza.

Notas sobre Gram Parsons e Ron Fricke

Gram Parsons - Return of the Grievous Angel

Para esquecer não há melhor veículo do que a música. Sempre o tive bastante claro. O que durante uma boa meia-vida não me passou pela cabeça foi vir a usar para esse efeito uma canção com raízes na música country. Até que apareceu Gram Parsons com o seu Return of the Grievous Angel. Não se declara sobre, ouve-se – e então deixamo-nos ir no seu lamento travestido.

The trouble with Harry e outras notas

The trouble with Harry (1955), Alfred Hitchcock

Há um morto que fez muito bem em ter morrido. Ninguém vai discordar. Um problema: não soube morrer e deixar os outros, os vivos, descansados. Ainda assim, como já se disse, fez ele, o morto, muito bem em ter morrido. E justamente quando morreu. Na altura certa. Nem antes nem depois da hora devida...

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Foi o primeiro filme de Shirley MacLaine:

Diz-se por aí que não é um grande Hitchcock. Como se isso fosse possível.

Metropolis e outras notas

Metropolis (1927), de Fritz Lang

Simbólico, na época considerou-se que excessivamente. Não poderia ter sido de outro modo, afinal. Vive da grandeza imagética, mas assenta em motivos, em acessos simples – práxis habitual na sétima arte, e mais ainda nos seus primórdios.

A pintura de Jean Michel Basquiat e outras notas

Artista com poucos estudos, que não pode viver sem a palavra, sempre presente, por vezes abarcando o quase tudo da obra, em fundo branco, bege ou negro.

Os rostos sem qualificação possível, bocas extensas e olhos não raras vezes de sangue. Quanto aos olhos, naquele ponto para lá da perplexidade, mesmo para lá do medo.

Braços abertos ou em súplica, ou por raiva; suprema raiva – conclui-se. Outras tantas vezes apenas latente. Morreu jovem, pois claro.

Agostinho da Silva e Barry Lyndon de Stanley Kubrick

Agostinho da Silva

Portugal deu forma duradoira à terra, deu caminho lógico ao mar – fechando-o, restando-lhe para o futuro criar condições para o que o mestre chama de céu aberto na terra. "Céu palpável, contactável, sem ser apenas conceito ou crença. A impressão de se ter chegado ao máximo."

O que ainda não se fez, mas já se sonhou, no sonho acordado que é a ficção.

Julio Cortazar - Gostamos tanto da Glenda

G, de Glenda, de Glenda Jackson, sim, mas principiemos pelos gatos, pelas esposas e olhares que não podemos dirigir para nós mesmos (espelhos não servem, são fracos e equívocos substitutos). O primeiro de dez contos. Conto tremendo, pois terrível. Quando o nosso espaço é contido / esmagado por equívocos, que também são nossos, é claro. Mulher e gato, ambos distantes. A mulher tão longe quanto bela. Talvez por isso mais bela. E cada vez mais longe, indecifrável, e tão bela. Frequentadora de museus, analista de quadros. Cada vez mais bela e distante. Por fim, mulher e gato olham de frente.

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