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Julio Cortazar - Gostamos tanto da Glenda

G, de Glenda, de Glenda Jackson, sim, mas principiemos pelos gatos, pelas esposas e olhares que não podemos dirigir para nós mesmos (espelhos não servem, são fracos e equívocos substitutos). O primeiro de dez contos. Conto tremendo, pois terrível. Quando o nosso espaço é contido / esmagado por equívocos, que também são nossos, é claro. Mulher e gato, ambos distantes. A mulher tão longe quanto bela. Talvez por isso mais bela. E cada vez mais longe, indecifrável, e tão bela. Frequentadora de museus, analista de quadros. Cada vez mais bela e distante. Por fim, mulher e gato olham de frente.

Filmes e outras notas breves 2

Samsara, de R. Fricke (porque apetece inundar de beleza, mesmo que advenha da dor, dor sempre distante, por isso subjectiva, e potencialmente bela, como uma explosão formidável da qual não vemos as consequências).

The Walk, de R. Zemeckis (porque a sequência da travessia faz vibrar, também porque a comoção foi tomando o lugar da vibração, e por fim porque dá a compreender o que sente aquele que flutua no etéreo; enfim, especificidades de um certo cinema).

Filmes de Guerra – 2 Filmes de Margarida Cardoso

Costa dos Murmúrios -

Pequena anedota referida pela autora do livro, Lídia Jorge: desejava mais sangue. As imagens têm pudor nos filmes de Margarida Cardoso.

Como reagem perante a guerra aqueles que nela não participam, tendo de estar nas suas imediações. Estão, mas não lhe pertencem. São as esposas dos valorosos soldados. Para onde pode escapar esse olhar? Para o interior, para o que as imagens não mostram.

Palavras chegam depois, são o veículo que se segue ao olhar. E ambos dizem mais do que mostram as imagens.

Yvone Kane -

Ian e o (supremo) desconforto

Nem sempre uma ferida profunda deixa grande marca à superfície. À distância, tal…sugestão (insinuação talvez seja melhor palavra) parece adequar-se perfeitamente ao suicídio de Ian Curtis. Vocalista e letrista dos Joy Division, banda rock que alguns arriscaram delimitar (a Wikipédia arruma-os numa espécie de dupla prateleira, no post-punkgothic rock).

Easy Rider

Easy Rider (1969), também sobre sonhos, a ascensão do realizador e o êxtase no horizonte do desencanto (i.e., o crepúsculo algures na fronteira do Texas com a Louisiana):

 

Acordar de um sonho é imperativo que se presta a muitos equívocos, mas também uma benesse, e convenhamos que não há assim tantas por aí. Como adormecer, o antecedente natural.

Delia Derbyshire

A tomada de consciência (são estes os termos a empregar, e não outros) das harmonias robotizadas de Delia Derbyshire, em 2018, a.d., resulta numa pequena maravilha: juntar três tempos num estado de sublime dissonância. Numa década, a sonoridade da anterior, cinco décadas depois. A década magna: 61-70 do século XX, como não podia deixar de ser.

O atlas espantadiço de Ayn Rand

Digo o que posso e devo, dadas as circunstâncias -

Começo por copiar da introdução de um texto anterior (e eis uma auto-citação):

“Ler um elevado número de excertos desse amontoado de páginas de pseudo-saber que é Atlas Shrugged, qualquer coisa como O Atlas Que Encolheu os Ombros e Foi à Vidinha Dele, de Ayn Rand, é uma experiência atroz (e contudo necessária) que pode afectar o precioso mecanismo das conexões cerebrais e causar danos permanentes.”

Fim de auto-citação.

Pacheco Pereira

Pacheco Pereira: A devassa de um modo de vida sob a forma de homenagem (que o visado não precisa e, estamos certos, tão pouco ambiciona).

 

Pelo menos Pacheco Pereira (PP) diz o que pensa!

Diz o que diz para lá da conveniência partidária ou do, e aqui sejamos convenientes, espírito da sua época.

Não é escravo da direita ou da esquerda - não defende em exclusivo as posições que melhor se adequam a qualquer dessas tendências. E não se inibe de opiniões fortes, pelo que nem sempre o centro é o seu projecto.

O dia do indizível

Duas canções, um trecho de poesia de Aberto Caeiro e o dia do indizível (a tomada de posse de Donald Trump como presidente dos EUA) – relembrando o pesadelo.

Duas canções que não salvam nem confortam, mas que são incrivelmente belas; ficam como aviso:

Breathing (Kate Bush)     

Closing Time (Leonard Cohen)

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O reencontro com Rollerball

O reencontro com Rollerball, o de 2002.

O espírito de cada época é prisão a que ninguém escapa, pois não se percebe como tal. Mecanismo ilusório, visto como livro de instruções; isto é, uma necessidade determinada por regras supra-terrenas. Enfim, crença que não se distingue da fé, já estamos habituados.

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