A transferência da Refinaria de Sines para a IndustrialCo — uma nova sociedade sediada em Espanha e controlada maioritariamente pela Moeve, na qual a Galp deterá apenas cerca de 20% — está a gerar uma forte contestação. A Comissão Central de Trabalhadores (CCT) da Petrogal emitiu um duro comunicado onde acusa o negócio de colocar em risco a soberania energética de Portugal, o futuro da infraestrutura e os postos de trabalho. O protesto coincide com a audição parlamentar da ministra do Ambiente e Energia, Maria da Graça Carvalho, chamada a explicar a operação aos deputados.
A estrutura representativa dos trabalhadores aproveitou a declaração do primeiro-ministro, Luís Montenegro, de que não gozaria férias para o desafiar a assumir uma posição pública clara. A CCT lamenta o silêncio do Governo face aos alertas enviados e classifica o recente anúncio do fundo soberano nacional como uma manobra de comunicação ineficaz. Os trabalhadores criticam a evolução da postura do Executivo: se no início do ano a tutela via a parceria como um ganho, agora limita-se a dizer que acompanha o processo através da Parpública, que detém 8,24% da Galp. Para a CCT, esta passividade perante a ameaça ao interesse nacional equivale a uma conivência tácita.
A contestação ganhou eco na sociedade civil com a Associação para o Desenvolvimento Económico (Sedes) a subscrever os riscos da fusão. A associação e os trabalhadores lembram que Portugal possui apenas uma refinaria, face às nove de Espanha, pelo que a perda de controlo deixará o país totalmente dependente de decisões externas à União Europeia. O controlo indireto de Sines passará a estar ligado aos acionistas maioritários da Moeve: o fundo Mubadala (Emirados Árabes Unidos) e o fundo de private equity Carlyle (EUA). Num cenário geopolítico global instável, marcado por ataques recentes a refinarias na Rússia, Ucrânia e Médio Oriente, a CCT defende que alienar este ativo é um erro estratégico gravíssimo.
Além do impacto na autonomia do país, há o receio de desaparecimento do conhecimento técnico e da capacidade de inovação, temendo-se uma desindustrialização semelhante à que ocorreu com o encerramento da refinaria de Matosinhos. O negócio redesenha o panorama ibérico ao dividir os ativos: as unidades industriais ficam na IndustrialCo sob maioria espanhola, enquanto o retalho e postos de combustível serão integrados na RetailCo, com capital dividido em partes iguais (50/50).
A transição ocorre num momento em que o complexo de Sines executa um plano de modernização e descarbonização de 650 milhões de euros para biocombustíveis e hidrogénio verde. Este investimento conta com um pilar de financiamento do Banco Europeu de Investimento (BEI), que aprovou 430 milhões de euros em empréstimos à Galp. Apesar da transição tecnológica em curso, a CCT assegura que continuará a exigir garantias concretas para o futuro do emprego e da produção nacional de combustíveis.
