A procura de gás natural em Portugal recuou para níveis que só estavam previstos para a década de 2035, entre os 3 e os 3,5 mil milhões de metros cúbicos, segundo a Agência Internacional de Energia (AIE). A queda, impulsionada pela redução na produção de eletricidade nas centrais de ciclo combinado, representa uma antecipação de quase uma década face às previsões e coloca o terminal de GNL de Sines sob pressão financeira.
O terminal de Sines foi concebido numa realidade de procura estável por parte das centrais de ciclo combinado, sustentada por contratos de longo prazo de fornecimento de gás. Com a procura a cair a um ritmo não antecipado, a infraestrutura — atualmente a única porta de entrada de gás em Portugal — enfrenta dificuldades na sua sustentabilidade financeira. Em fevereiro de 2026, o Governo admitiu ainda que Portugal importava cerca de 5% de GNL russo através de Sines, ao abrigo de um contrato de longo prazo.
A AIE recomenda que o Governo e a ERSE revejam os compromissos contratuais associados a Sines, assegurando a sua compatibilidade com o declínio previsto da procura. A agência aponta também o biometano — produzido a partir de resíduos urbanos e explorações agropecuárias — como alternativa estratégica, salientando que Portugal está atrasado neste domínio face a países como a Dinamarca, a França e a Itália.
O paradoxo de Sines é evidente: ao mesmo tempo que o porto acolhe os maiores projetos europeus de hidrogénio verde e atrai investimentos de milhares de milhões de euros para a economia verde, o seu terminal de gás natural enfrenta uma crise de procura que ninguém antecipou tão cedo.
