O projeto agroflorestal das Herdades de Murta e Monte Novo, em Alcácer do Sal, foi aprovado após uma nova reformulação, permitindo avançar com uma plantação intensiva de tangerinas em 295 hectares. Promovido pela empresa Expoente Frugal, do grupo Aquaterra, o projeto tinha sido anteriormente rejeitado em diferentes versões.
A nova configuração representa uma redução de cerca de 18% da área agrícola face à proposta anterior. Estão previstos 12 furos para captação de água subterrânea, menos quatro do que na versão anterior, e um consumo anual estimado em 1,74 milhões de metros cúbicos de água, abaixo dos 2,28 milhões anteriormente previstos.
A exploração ficará integrada numa propriedade com mais de 2.400 hectares, numa área ambientalmente sensível do concelho. O território abrange zonas da Rede Natura 2000, incluindo as Zonas Especiais de Conservação (ZEC) Comporta/Galé e Estuário do Sado, encontrando-se também próximo de outras áreas classificadas.
A aprovação mantém, contudo, a contestação de organizações ambientalistas. A Quercus tinha pedido, em junho, a rejeição da nova versão, considerando que a redução da área e do consumo de água não eliminava os principais impactos ambientais. A associação alertou para a pressão sobre os aquíferos do litoral alentejano e para os efeitos cumulativos da expansão da agricultura intensiva de regadio.
Também a associação Dunas Livres manifestou oposição ao projeto, apontando riscos para os recursos hídricos subterrâneos e para habitats protegidos. A organização tem defendido que existem sinais de redução dos níveis dos aquíferos na região desde 2017 e questiona a instalação de novas áreas de regadio num território já sujeito a elevada pressão sobre os recursos hídricos.
O processo remonta a propostas anteriores de maior dimensão. A primeira versão previa 722 hectares de pera-abacate e 34 furos de captação. Após uma reformulação, a área de abacateiros passou para 658 hectares, mas a Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Alentejo emitiu, em agosto de 2024, uma Declaração de Impacte Ambiental desfavorável, identificando impactos negativos significativos a muito significativos na conservação da natureza, recursos hídricos, alterações climáticas e ordenamento do território.
Posteriormente, a pera-abacate foi substituída pela tangerina e a dimensão da componente agrícola foi sendo reduzida. A versão apresentada em 2025 previa inicialmente 360,63 hectares de tangerineiras e 16 captações subterrâneas, com um investimento estimado em 67 milhões de euros.
A aprovação da quarta versão volta a colocar em discussão a compatibilização entre a expansão da agricultura intensiva e a disponibilidade de água no litoral alentejano, numa região onde o crescimento do regadio tem sido acompanhado por preocupações relativas à pressão sobre os aquíferos e os ecossistemas classificados.
