19 Setembro 2020      10:04

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Lagartixa de pés frios

Num mundo paralelo ao nosso, viviam seres imaginários e seres sem imaginação. Nesse mundo, paralelo mas não distante, vivia uma lagartixa roxa com bolinhas amarelas. Era um animal muito requintado. Não havia naquele mundo nenhuma igual a ela.

Nesse mundo, os animais que eram imaginários tinham nomes. Os outros não tinham nada. Lagartixa não tinha nada. Tinha nascido sem poder escolher o que era. Se soubesse, teria preferido nascer um ser imaginário e poderia ser quem quisesse.

O mundo em que vivia era um lugar inóspito. Visualize esse sítio, tal como um deserto. Quente nos dias, queimava a pele dos seres sem imaginação. Às noites continuava a arder esses pés. Nunca a temperatura descia. Aos seres imaginários nada fazia esse chão ardente, precisamente porque esses não existiam em sentido real. Entre eles contavam-se cegonhas com cabeça de rinoceronte e pernas de centopeia, baratas com cabeça de coruja e pernas de flamingo, piolhos gigantes, que davam à luz peixe-aranha. Muitos mais havia para descrever, mas fiquemos por estes que creio já serem suficientes para dar ao senhor leitor a ideia do que aqui acontecia.

Os seres imaginários cruzavam-se com os seres sem imaginação mas não se viam. Era um mundo paralelo dentro do mundo paralelo.

Tudo era um espelho. A nossa lagartixa era, nos seres segundos, diferente. Tinha os pés frios e ao mesmo tempo, sentia que era singular. Os pés frios faziam-lhe impressão. Era tão desconfortável ter os pés frios. Sabem aquela sensação de incómodo permanente que não se apazigua com nada? Lagartixa sentia-se assim desde que se conhecera. Decidiu resolver o problema e apanhando uma ovelha que tinha bico de peru e pernas de rã, tosquiou-a e, com a lã, fez umas pantufas que lhe aqueciam os pés e resolveu um problema.

Mas, esperem um pouco que me baralhei agora. Então, se era um ser sem imaginação, como conseguiu pensamento tão elaborado para fazer umas pantufas de lã? E mais, como conseguia ver a ovelha que era ao mesmo tempo uma rã e um peru? A lagartixa, já com os pés quentinhos começou a pensar nisso. Estava mais feliz agora, mas mesmo assim inquieta em relação ao que era. Já não tinha o pai lagarto e a mãe lagartixa para lhe explicar as coisas da vida. O pai, aliás nunca tinha conhecido e a mãe pouco falava dele.

Usando o seu pensamento mais uma vez, foi ao registo civil e lá pediu a certidão de nascimento dos pais.

No momento em que leu a certidão, caiu-lhe tudo nas pantufas. Não é que, no evento mais impossível de acontecer, Lagartixa tinha sido concebida numa noite de amor entre um lagarto com penas de pavão e patinhas de pulga e a lagartixa sua mãe. Por isso, tinha sempre os pés frios. Tudo ficou claro! Era uma mistura linda entre seres diferentes.

Feliz, Lagartixa usou mais uma vez a imaginação e fundou uma loja de roupa de lã. Aproveitando a falta de imaginação dos outros seres, convenceu-os de que precisavam de pantufas para aquecer os pés que já ferviam. Todos os animais faziam fila à porta. Em poucos anos, tornou-se uma empresária de sucesso. Vivendo entre os dois mundos, casou-se com uma galinha que tinha cabeça de cobra e rabo de raposa. Tiveram muitos gambuzinos e foram felizes para sempre!

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