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Contos

Grãos de areia

Esta é a história verdadeira do homem que de decidiu contar os grãos de areia, um por um, da praia que ficava perto da casa dele. 
Zé Fagundes sempre tinha sido um homem de princípios. Sempre tinha sido obcecado por um motivo, por uma tarefa. Cada momento da sua vida era regido por uma tarefa a terminar, um obstáculo a ultrapassar, algo a fazer.

Corta-unhas

Discutiram ostensivamente os dois. Cada um parecia ter a razão do seu lado. Cada um queria ter a razão do seu lado. Infelizmente nenhum deles a tinha. Tinham sido um casal feliz até esse momento. A partir daí tudo começou a piorar. Quem imaginaria que tão inocente e útil utensílio teria esse efeito. De facto, nada assim o suporia mas teve.

Ela, acabada de acordar, ainda com os olhos meio fechados e com o cabelo semelhante àquele de quem acabara de ver um lobo, sai da cama, ainda ele dormia. Não deu por nada.

X - Outro lugar

Tanto Amaro como Linda ficaram mais uns dias naquela paz e, no dia em que tiveram de partir, despediram-se com um sentimento de vazio. Linda não estava já em si. Linda já tinha chegado a 80% do lugar onde estaria, no lugar onde ficaria. Esse lugar era um lugar feio, vazio, onde ninguém queria estar. Amaro sabia onde a mulher ficaria, conhecia bem esse lugar vazio.

ESCADA ROLANTE

A luta começou voraz. Os dois homens agrediam-se mútua e violentamente, no fundo de uma escada. À volta deles, uma multidão de curiosos que sempre se agrega a qualquer confusão ou acidente pela mera curiosidade de ver o sucedido, acicatar os ânimos ou esperar o desfecho de uma cena que mais parecia retirada de um filme de ação. Ninguém sabia dizer se os homens se conheciam ou o motivo do início da violência. Ninguém tinha presente o exato momento em que começara.

A GALINHA

Falemos de animais. Oh, que chatice, esta semana outra vez, dizia alguém que estava mais afastado, a ler ao longe o texto que o outro estava a começar a escrever. Todavia, a história começava. E começava assim. Estavam cinco pessoas naquela sala onde se iria desenrolar o vil caso… Por isso mesmo, avisa-se já o estimado leitor que se trata de um aterrador acontecimento, possivelmente gráfico, suscetível de causar trauma. Se assim, for, como se faz nos anúncios, filmes, tudo, aqui fica o disclaimer (isenção de responsabilidade da nossa parte). Tirando o introito, aqui vai.

UM PAR DE PEÚGAS

Pôs uma saqueta de chá adelgaçante numa chávena de chá, encheu a cafeteira de água à medida da chávena, ligou a chaleira elétrica e sentou-se na cadeira. A cadeira recostava-se e deixava que a sensação de ir e voltar se mantivesse numa constante permanente, ao segundo. A sensação embalava-o enquanto abria e fechava os olhos como se estivesse a meditar. Em meditação profunda, o barulho de fundo era o volume da água a ferver na chaleira que se ouvia em gradação.

PALAVRAS ANDARILHAS JÁ TÊM DATA

A 3ª edição do “Palavras Andarilhas” já tem data e, de 28 a 30 de agosto, Beja voltará a ser a capital dos contos.

O Jardim Público de Beja será novamente o centro da festa do conto, da exaltação da palavra enquanto veículo de transmissão cultural e de tradições intemporais. Os contos, quer sejam lidos, escutados ou contados têm sido, desde sempre, um grande veículo de aprendizagem coletiva.  

 

Imagem de bejayarrabaldes.blogspot.pt

ERA GUARDA-REDES

Isto aconteceu há alguns anos atrás. Liceu de Beja, por volta das 08:30 da manhã. O toque de entrada ecoava em todo o liceu, emanado das estridentes campainhas que marcavam a hora de entrar na sala. Agitada, a turma de 9º ano rodeava a porta, à espera que chegasse o professor. Iam ter matemática durante 90 minutos. Rui não se interessava muito por disciplina nenhuma. Era um aluno mediano em todas as disciplinas e nunca tinha excelentes notas nem nunca baixava dos cinquenta por cento. Tinha, porém, uma paixão que não deixava nunca de o acompanhar.