Campo Maior regressa ao mapa mundial das grandes celebrações culturais com a edição de 2026 das tradicionais Festas do Povo. Volvidos onze anos desde a última realização deste evento singular, a vila alentejana de Portalegre prepara-se para voltar a florir entre os dias 8 e 16 de agosto.
A manifestação popular, já reconhecida pela UNESCO como Património Cultural Imaterial da Humanidade, destaca-se por uma característica única: só ganha vida quando os próprios habitantes assim o decidem. Para tornar esta edição possível, o investimento financeiro ultrapassou a fasquia dos 600 mil euros, estimando-se que a beleza do resultado final consiga atrair perto de um milhão de visitantes de várias geografias.
O segredo guardado nos serões alentejanos
Nos últimos meses, a pacatez noturna de Campo Maior transformou-se num fervilhar de atividade criativa clandestina. Longe do olhar do público e de forma totalmente voluntária, mais de quatro mil residentes dedicam as suas noites e tempos livres à produção minuciosa de milhões de flores de papel feitas inteiramente à mão. As oficinas improvisadas espalham-se por garagens, sedes associativas e casas particulares, incluindo uma antiga padaria pertencente ao falecido empresário Rui Nabeiro.
O resultado prático deste esforço coletivo vai traduzir-se na transformação radical de cerca de uma centena de ruas em autênticos jardins a céu aberto. Cada artéria conta com equipas dedicadas a coordenar a logística, lideradas por “cabeças de rua” encarregues de gerir os prazos exigentes, cativar os vizinhos e distribuir as matérias-primas.
União geracional e engenharia comunitária
O processo criativo combina o respeito pela traça tradicional com propostas estéticas contemporâneas. De modo a conter as despesas e a conferir maior naturalidade ao arranjo das ruas, muitos moradores optaram por recolher e incorporar elementos vegetais e orgânicos vindos diretamente da natureza envolvente.
Estes serões operosos funcionam também como um importante ponto de partilha social e de transmissão de saberes ancestrais. É na própria rua que os habitantes convivem e ensinam as técnicas mais complexas aos mais novos — como a delicada arte de amarrar os tetos decorativos —, unindo crianças e idosos na mesma missão.
Embora as flores coloridas arrecadem as atenções mediáticas, existe um minucioso trabalho de engenharia de bastidores feito maioritariamente pela população masculina, que assume as tarefas de medição geométrica, montagem das pesadas armaduras estruturais e fixação dos arcos que suportam os ornamentos. A título de exemplo da magnitude logística, apenas uma das ruas mais icónicas da vila, a Rua 5 de Outubro, conta com cerca de 40 voluntários para erguer uma estrutura de 86 metros de comprimento que albergará perto de 280 mil flores presas por cinco quilómetros de cordel.
O culminar de todos estes meses de dedicação e secretismo acontecerá na célebre “noite da enramação”. Num ápice de poucas horas, as decorações saem dos esconderijos e são montadas ao ar livre, revelando o espírito hospitaleiro e o calor humano que caracterizam o povo de Campo Maior.
