1 Outubro 2017      11:19

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ELEIÇÕES, REFERENDOS, PODER E A PERVERSIDADE DA DEMOCRACIA

Num curto espaço de tempo o mundo começa a ver ruir alguns princípios da Democracia que deixam cada vez mais evidente que é – como disse Camus em 1948 – não o melhor dos regimes, mas o menos mau.

Inevitavelmente, a eleição de Trump marca o início de uma série de acontecimentos que, apesar de já estarem antes em curso, tomaram proporções mais notórias no passado recente como a ditadura turca, as tentativas de “desdemocratização” da Polónia, a coação e a violência na Venezuela, os golpes “a la brasileira”, a subida nas votações dos partidos de extrema direita, conotados com ideias xenófobos e racistas pela Europa fora.

Mais recentemente, na Alemanha - onde Merkel venceu novamente - a AfD, o partido de extrema-direita, venceu com 13% dos votos. Na sua sede gritou-se “Vamos caçá-los!", num comentário que pode ter várias conotações. Para que se note, voltaram ao Bundestag – o parlamento alemão -  algo que não acontecia desde a Segunda Guerra Mundial, quando por lá passou o partido Nazi de Adolf Hitler.

É numa Europa – e num mundo – onde cada vez mais falta sentido de Estado e líderes democráticos que prezem e valorizem a Liberdade e a Fraternidade entre os povos, que surge o discurso de Macron na Sorbonne, um lufada de ar fresco numa Europa velha, perdida às mãos de agências de rating e refém das bolsas, e que cada vez mais longe dos ideais primários.

A escolha em votar nos extremos é cada mais um reflexo que o caminho seguido pelos líderes europeus recentes foi errado, não dá respostas à sociedade e caiu no descrédito. Corrupção, decisões em função do próprio umbigo e em função de se manterem agarrados ao poder, a qualquer custo.

É também nestes cenários que, nas últimas semanas, a Catalunha tem estado nas bocas do mundo. Durante décadas o País Basco pediu a independência à Espanha, à força da bomba, do atentado, do terrorismo, do medo, ao longo de 51 anos. Cerca de 800 mortos depois, finalmente, em 2011, a ETA terminou; o desejo de independência persiste. A Catalunha – tal como a Galiza – também mantêm este desejo, até com base em fatores históricos e culturais, e até pela oposição à ditadura de Franco.

Nos últimos tempos, a Catalunha pediu um referendo aos catalães. Carles Puigdemont ex-alcaide de Girona, líder da Convergência Democrática da Catalunha – um partido que defende a Catalunha independente – foi eleito presidente da Generalidade da Catalunha (Governo Regional) e, seguindo o programa com o qual foi eleito, anunciou um referendo para que os Catalães se pronunciassem sobre a sua vontade: Catalunha independente: sim ou não?

Os alarmes soaram em Madrid, a política do mais do mesmo, que finge servir todos e serve sempre os mesmos, não sabia (sabe) o que fazer. A todo o custo e com recurso à força tem feito o possível e o impensável para evitar o referendo de hoje. Alterou leis, reuniram e coordenaram-se de modo a impedir que a população catalã se pronunciasse nas urnas. Do rei – do qual se esperava uma melhor preparação para o cargo – surge uma postura bem diferente daquela que teve o seu pai – Rei Juan Carlos - em 1978, quando apertou a mão a Josep Tarradellas, reconhecido como presidente da Generalitat Catalã um ano antes após no ser presidente no exílio durante desde 1954, durante a ditadura franquista.

Ao desejo de independência catalã, que o pretendeu expressar pela via democrática do voto, a Espanha democrática reagiu com violência e provocou as imagens que hoje se poderão ver por todo o lado. A mesma Espanha que criticou o País Basco reage – num outro nível, claro – mas com a violência que ninguém desejava e coloca a Democracia espanhola ao nível da venezuelana. Estivesse Chávez vivo e o mítico “¿Por qué no te callas?” do Rei Juan Carlos, seria agora devolvido. Só falta no fim ser o próprio Governo espanhol a dizer que os catalães não votaram porque não queriam a independência…

Posto isto, no nosso feudo, é também dia de escolhas; sem violência, espera-se. Hoje decorrem as eleições autárquicas e não me recordo de uma mistura tão ”promíscua” e populista entre o local e o nacional.

De norte a sul, líderes partidários passaram por centenas de localidades. A visita dos grandes aos confins do território nacional é sempre de saudar, no entanto, o foco esteve na política nacional, nos assuntos nacionais, do combate entre galos e não nas políticas locais, daquelas que interessam realmente à população que hoje escolhe o Presidente da Junta que vive ali, na esquina do café com a escola.

O que ninguém parece ter percebido é que, nas autárquicas, poucos são os que votam no partido pelo partido só. Nas autárquicas – mais que quaisquer outras eleições – votam-se as pessoas e o voto é mais volátil que nunca.

Mas também aqui os agarranços ao poder, a política do ego umbiguista, as obras pintadas de fresco na última semana antes das eleições, o funcionamento por vezes pouco democrático dos partidos tradicionais e a sua falta de abertura à sociedade civil – sobretudo durante os três anos e meio que distam de umas autárquicas para outras - levou a que, em muitas localidades, os movimentos de cidadãos proliferassem que nem cogumelos. Tendo em conta o número de pessoas necessárias para fazer listas, certamente existirão localidades onde só os menores não integram as mesmas.

No entanto, (e já que estamos num registo espanhol) as “ganas” de votar por cá não se comparam à dos Catalães. Por cá, desde as primeiras eleições livres, em 1975, o número de votantes baixou em cerca de 40%.

“Um voto é como uma espingarda, a sua utilidade depende do caráter do beneficiado.” Disse Theodore Roosevelt, antigo presidente norte-americano. E é assim mesmo. Faça uso do seu poder. Não fique em casa, não pense só clássico do futebol; leia os programas que caiaram na sua caixa do correio – cada vez mais parece que as caras e as fotos interessam mais que as propostas e programas (muitos megalómanos e irreais), mas mesmo assim: vá votar!

 Faça caso das palavras do presidente Marcelo; escolha – e não deixe que escolham por si – e ganhe o direito ético de, e só depois de votar, poder criticar.

 

Não sabe onde votar? Visite www.recenseamento.mai.gov.pt, envie um SMS com RE (espaço) nº de identificação civil do BI ou CC (espaço) data de nascimento (formato AAAAMMDD) ou ligue 808 206 206.

 

 

Imagem shannonside.ie

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