O Grupo EDP confirmou a desistência do projecto Grande Lago — a maior central solar flutuante alguma vez adjudicada em Portugal, que chegou a ser considerada a maior do mundo no seu género. O projecto, ganho pela EDP Renováveis no leilão de solar flutuante de 2022, previa a instalação de uma central híbrida fotovoltaica e eólica com capacidade de 70 megawatts a ocupar 250 hectares do espelho de água da albufeira do Alqueva. A inviabilidade económica radica na própria proposta que garantiu a adjudicação: para ganhar o concurso, a empresa ofereceu um contrato por diferenças de -4€/MWh durante 15 anos, comprometendo-se a pagar ao sistema eléctrico por cada megawatt-hora produzido — uma lógica de posicionamento agressivo de mercado que, conjugada com os custos reais de construção de uma central desta dimensão sobre a água e a incerteza regulatória, se revelou economicamente impossível de honrar.
O estudo de impacte ambiental constituiu o segundo obstáculo intransponível. Das seis centrais flutuantes adjudicadas no leilão de 2022, três foram chumbadas em avaliação ambiental — e o Grande Lago não escapou a esse padrão. A dificuldade de aprovação é agravada pela elevada densidade de projectos de geração já autorizados na região do Alqueva, que obrigaria a uma avaliação cumulativa dos impactes com as centrais existentes, tornando praticamente improvável qualquer decisão favorável. A esta pressão ambiental somou-se a oposição de cinco câmaras municipais ribeirinhas da albufeira, que contestaram formalmente o projecto junto do Governo e da Agência Portuguesa do Ambiente, argumentando que a ocupação de 250 hectares do espelho de água ameaçaria directamente o modelo turístico que o Alqueva tem vindo a consolidar — do Dark Sky Alqueva aos cruzeiros fluviais e às praias e actividades náuticas que transformaram a economia do Alentejo Oriental nas últimas décadas.
O abandono do Grande Lago não encerra a presença da EDP no solar flutuante do Alqueva: a empresa mantém em funcionamento uma central-piloto de cinco megawatts com 12.000 painéis solares em quatro hectares da albufeira, instalada em 2022 e que serve de referência técnica para decisões futuras. Para muitos alentejanos, a notícia da desistência é, acima de tudo, bem-vinda: o Alqueva tornou-se muito mais do que uma barragem nas últimas décadas, transformando-se num lago artificial que reconfigurou a paisagem, a economia e a identidade do Alentejo Oriental — e a ideia de cobrir 250 hectares desse espelho de água com painéis fotovoltaicos nunca foi pacífica entre as comunidades que vivem e trabalham à sua volta.
