A EDP Renováveis desistiu oficialmente da construção da Central Híbrida do Grande Lago, um mega-projeto no Alqueva orçado em 169 milhões de euros, após a Agência Portuguesa do Ambiente chumbar a conformidade do seu estudo de impacte ambiental. O recuo da empresa foi motivado por falhas técnicas no processo, exigências de preservação ecológica e uma conjuntura económica desfavorável, marcada pela queda dos preços da eletricidade no mercado grossista e pelo encarecimento dos equipamentos tecnológicos.
O desenho original da central pretendia unir uma estrutura solar flutuante a dois parques eólicos espalhados pelos municípios de Portel, Vidigueira, Reguengos de Monsaraz e Moura. Contudo, o chumbo técnico da autoridade ambiental aconteceu antes mesmo de o projeto ser avaliado no detalhe dos seus impactos reais. A pressa e as modificações estruturais de última hora feitas pela EDP inviabilizaram a continuidade do parecer legal.
O grande entrave ecológico surgiu com a linha de eletricidade planeada para conectar os parques eólicos. Monitorizações iniciadas em junho de 2025 revelaram que o traçado passava por zonas de reprodução do abutre-preto, uma espécie ameaçada. Embora a EDP tenha proposto um caminho alternativo para proteger as aves, a nova rota avançava por terrenos nunca antes estudados. A comissão de avaliação rejeitou a mudança por falta de mapeamento detalhado e de dados que cobrissem um ano inteiro de observação da fauna local.
A empresa energética tentou ganhar tempo e solicitou um prazo extra até ao final de setembro de 2026 para concluir os estudos em falta sobre a colónia. A Agência Portuguesa do Ambiente recusou a extensão do prazo, justificando que o processo administrativo já acumulava mais de doze meses de paragem forçada.
Dados da Liga para a Proteção da Natureza confirmam que a região de Vidigueira e Portel acolhe atualmente 14 ninhos de abutre-preto, sendo 12 deles de casais reprodutores ativos. A associação sublinha que o local é vital para a sobrevivência desta ave no sul de Portugal, alertando para os riscos fatais de colisão com as pás das eólicas e de eletrocussão nos cabos de alta tensão.
O complexo energético projetado contaria com 82 hectares de painéis solares sobre a água e 16 aerogeradores. A EDP tinha garantido este direito de exploração num leilão público, onde ofereceu tarifas historicamente baixas que prometiam poupanças significativas aos consumidores. Todavia, a realidade financeira atual da produção solar, somada à burocracia ambiental e à necessidade de proteger a biodiversidade, ditaram o cancelamento definitivo da infraestrutura.
