5 Setembro 2020      12:52

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Loiro (O papagaio vaidoso)

Num tempo não muito distante, vivia numa cidade perto do céu um papagaio loiro de bico doirado. Naquele lugar, tão estranho na forma, as casas eram feitas de árvores e todos os animais viviam nelas. Uns, debaixo das raízes em covas profundas... aqueles de classes mais baixas. Outros vivendo em tocas nos troncos das árvores e a grande maioria nos ramos, nas folhas, nas flores... era uma cidade de habitat sustentável.

Loiro, de seu nome, era papagaio loiro vaidoso. Porque vaidoso? Essa é uma longa história... uma história que nunca tem fim. Seja Loiro ou outro, a história havia de continuar. Durante muitos anos, Loiro viveu na mesma casa. No ramo mais bonito, Loiro vivia. Tinha uma penugem esbelta. Corriam nas penas as cores alouradas, umas mais claras, outras mais torradas. No seu peito, um coração em vermelho. O cabelo loiro, com uma poupa maior do que a do Elvis Presley, era o orgulho do mesmo.

Carregava em si o peso de ser o galã mais concorrido de toda a urbe. Ser galã é uma faca de dois legumes. Ser galã é ter a capacidade de seduzir sem o fazer. É como se o mundo rodasse em volta de nós e para alguns isso transforma a vida um pequeno espanhol que vive dentro de nós, de seu nome ego.

Loiro era assim. Um Valliant, um Casanova, um Marques de Sade, um eterno enamorado da vida e das coisas que a rodeavam. Especialmente todas as pássaras que nas árvores à sua volta habitavam. Algumas vezes, ia ao rio, ver as descautas aves que por ali bebericavam alguma água.

Ao mesmo tempo, Loiro, tão cheio de penas doiradas e de energia, sentia-se só. Tudo num galã é passageiro e o brilho das luzes numa cidade feita de árvores desvanece quando o sol se põe. A luz da lua não é suficiente para iluminar as penas, nem as de Loiro que tanto brilhava.

Um dia, um terrível incêndio propagou-se por toda a cidade e a destruição foi enorme. Não havia bombeiros e nem os pelicanos que tanto trabalharam, trazendo água e água dos rios, conseguiram resolver. Ardeu tudo! Porém, Loiro conseguiu escapar imune. Voou mais alto do que alguma vez tinha feito. Não tão alto quanto Ícaro, mas mesmo muito acima do nível em que qualquer ave consegue voar.

Tudo parecia uma devastação. Um manto escuro cobria agora a cidade e não havia vivalma no meio do início, no fim do princípio e nem no princípio do fim.

Cansado de bater asas, viu um pequeno oásis, rodeado de um deserto. Um pouco de água faria a diferença. Hidratar o corpo frágil de ave perseguida seria a salvação do herói.

Desceu, molhou o bico, e sentia-se melhor. Sentia-se protegido... mas esse foi um sentimento que durou pouco tempo. Um grupo de grifos rodeou o pobre Loiro e de papagaio vaidoso, depressa se transformou em passarinho depenado. Sobraram-lhe três penas na cabeça. Nada mais.

Loiro teve muita sorte ao sobreviver ao ataque com vida, mas restava-lhe pouco mais do que o orgulho próprio que tinha. Recordava com saudades o tempo em que era galã e o mulherengo da árvore e arredores. Agora, numa terra queimada, nada tinha além de meia dúzia de penas na cabeça, ou menos.

Voar não podia pois as asas só funcionavam se tivesse penas.

Passou as passas do Algarve para chegar a um outro oásis seguro. Nesse, por sorte, havia uma árvore esbelta e não tinha sido ainda descoberta pelos grifos e abutres. Ali sentia-se seguro.

Por ali ficou, na esperança de lhe crescerem as penas. Anos e anos passaram e, além de uma penugem fraca, nada mais cresceu. A poupa não apareceu mais. Loiro, o papagaio vaidoso, olhou para trás na sua vida e viu o que tinha perdido. Gastou mal o seu tempo. Todos nós o fazemos de alguma forma.

No entanto, nos últimos dias da sua vida, Loiro escreveu as suas memórias e decidiu ser um guru para os seus seguidores.

Também, nos últimos dias, decidiu voltar a casa. Caminhando, sem penas e sem pena, chegou à cidade que muitos anos antes tinha sido queimada e deparou-se com uma cidade renascida, como a Fénix (tinham estudado juntos).

Não conhecia ninguém, mas conseguiu ainda encontrar a sua antiga casa. Lá habitava uma família de pica-paus. Tinham feito um ninho no tronco. Os ramos estavam livres e as raízes também.

Decidiu viver no rês do chão, uma vez que subir e voar até ao topo ser-lhe-ia impossível. Aí, na toca, que antes pertencia a outros, acabou os seus dias, recordando com saudade os seus tempos dourados. Morreu despenado e despojado de tudo, mas com a memória dos seus dias gloriosos de galã.

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