Tribuna Alentejo
duartecarrasquinho
Colunistas

A opressão

A nossa vida é feita de hábitos, de rituais, de pequenos gestos enraizados que raramente paramos para questionar, muito menos para imaginar que um dia alguém nos poderia punir por eles.

Felizmente, nunca tive de me confrontar com uma realidade opressiva, onde algo tão simples como dar um beijo na rua pudesse ser considerado imoral ou indecente, onde um beijo significava uma multa, ou onde a escolha de ouvir uma certa música ou comprar um certo livro já tinha, previamente, sido restrita. Pensar numa realidade assim, em que um sistema censurasse previamente todos os objetos culturais ou de lazer, tornando-nos alheios à nossa verdadeira liberdade de escolha, é algo inconcebível para mim e quero acreditar que o é para toda a gente.

Em sistemas opressivos, o género conta e, por contar, a opressão sob as mulheres é sempre mais profunda. Não só com um carácter social, de relacionamento com os outros, mas também em aspetos do seu íntimo. Os sistemas opressivos têm interesse em relação à liberdade de movimento das mulheres. Andar sozinha à noite era proibido, como era proibido utilizar biquíni ou ir de minissaia para o liceu. É uma das razões para, ainda hoje, em alguns países, não poderem ter licença de carro. Formalmente, em Portugal, podiam ter carta, mas na prática a liberdade de conduzir estava condicionada por normas sociais e familiares que catalogavam a condução como algo exclusivamente masculino.

Como Natália Correia escreveu: “O direito ao corpo, o direito ao prazer” eram duas dimensões que eram arredadas às mulheres, retirando esse espaço para ser.

Esta é uma dimensão interessante, o que não estava escrito explicitamente em lei muitas vezes tinha o mesmo efeito de uma proibição formal: o olhar atento da sociedade e o medo da intervenção das autoridades ensinavam às pessoas, sobretudo às mulheres, que existia um limite invisível que não devia ser ultrapassado. Assim, a vida era regulada não apenas pelo que era legal, mas pelo que era aceitável, uma linha ténue entre existir e ser punido por existir.

E para não falar de homens e mulheres que tinham uma preferência sexual por pessoas do seu mesmo sexo. A história de Valentim de Barros ilustra bem esta realidade: bailarino e homossexual, foi preso e institucionalizado num hospital psiquiátrico, com o diagnóstico único de homossexualidade, o que implicou mais de 50 anos de prisão. Esta repressão prolongou-se muito para além do 25 de abril, pois a homossexualidade só deixou de ser considerada crime em Portugal em 1982.

Esta história revela outra dimensão interessante: mesmo depois do fim do estado opressor e da criminalização formal, as restrições e limitações podem persistir, agora de forma mais subtil.

Proibições e estigmas que antes eram legalmente sancionados podem demorar anos a ser totalmente superados na prática, seja através da cultura, dos hábitos sociais ou da mentalidade das pessoas. A liberdade formal, conquistada pela lei, nem sempre se traduz imediatamente em liberdade real.

Não sabemos como o mundo irá evoluir, nem o que o futuro nos reserva. Mas podemos aprender com o passado que nenhuma destas dimensões de opressão surgiu de um dia para o outro: foi sempre através do estabelecimento de normas sociais invisíveis ou de costumes que, pouco a pouco, passaram a ditar o que se podia ou não fazer.

É meu desejo, e também a minha esperança, que, nestes tempos inquietantes em que vivemos, se algum dia nos virmos num caminho que conduza à restrição de liberdades e direitos, que surja então um murro firme na mesa, que se afirme e proclame: por aqui não. Por aqui não, pelo que os nossos antepassados sofreram, e por aqui não, pelo que nós próprios já vivemos.

Artigos relacionados

O BCE sobe os juros. E agora?

Martinho Murteira

As democracias

Duarte Carrasquinho

CR7 e mais 10!

Tiago Salgueiro

Nas exéquias dum ido Ministério dos Negócios Estrangeiros

Frederico Carvalho

O 26 de abril

Duarte Carrasquinho

A inflação que não aparece nos discursos

Martinho Murteira