19 Outubro 2019      12:18

Está aqui

J de José

José sorria jocoso enquanto jogava um jogo chamado Jeopardy. Sentado no jardim, rodeado de jasmim, já sabia que aquilo não ia correr bem. Junto a ele estava um jarro de mel jeitoso. Bem desenhado, o jarro começava a ficar rodeado de abelhas que faziam jjjjjjjj. José começou a ficar nervoso e começou a andar de um lado para o outro, gritando por ajuda. O pobre rapaz era alérgico a picadas de abelhas, especialmente as que faziam jjjjj.

Qualquer um de nós poderia ser o José e estar sentado num jardim a jogar jeopardy, com um jarro ao lado. José fugiu do jardim, deixando o mel ao cuidado das abelhas, lugar afinal de onde tinha vindo...

Já em casa, José bebeu um litro de água, de tão nervoso que estava. Engoliu aquela água como quem bebia isso mesmo, água. Vivia sozinho num pequeno estúdio junto ao jardim de onde tinha acabado de fugir. Era um jovem solitário, incapaz de se relacionar com outras pessoas. Tinha um jeito especial para ficar sozinho e construir planos de engenharia. A casa tinha uma cama pequena, uma mesa com uma cadeira e uma janela que olhava o jardim. José não precisava nem queria mais. José pensava as palavras, como se fossem um jogo. Imaginava-as, juntando-as depois. Peça por peça construía o seu mundo onde jamais se acabaria o jasmim e o cheiro que o acompanha.

José falava o mínimo essencial porque acreditava que as palavras eram para ser escritas e só usadas com muito jeito. José tinha nome de santo e nome de tanta gente que foi também carpinteiro, agricultor, pintor, político, escritor, rei, cantor e outros que foram simplesmente José, sem que a história se lembre deles.

José lia um livro de josé, enquanto se sentava na cadeira também feita por josé, olhando o jardim de jasmim, imaginado por um jardineiro chamado josé.

A janela estava entreaberta e os olhos de José fechavam-se imaginando a solidão e o silêncio. Nada mais havia além de José e da abelha que entrou pela janela.

Tinha adormecido a pensar na solidão e o pobre José que foi picado pela abelha, sem sequer se aperceber. A picada foi fatal.

José falou com a morte como nunca havia falado com ninguém. A conversa durou uma eternidade. A morte conhecia todos os José do mundo, os que já tinha levado e os que esperava. A morte abriu-lhe as portas da eternidade, deixando que José passasse a escrever a vida e a morte no jardim paradisíaco de jasmim, um onde as abelhas já não picavam e onde o silêncio e a solidão eram palavras que voavam pelo ar como Pólen.

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