26 Janeiro 2019      15:16

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IV. O dia seguinte

O dia seguinte à morte de Amaro amanheceu menos frio do que os dias anteriores. A neve e o gelo que se instalara naquela cidade começou a desaparecer. Tal como o calor do corpo de Amaro que se diluiu com o seu último sopro, as ruas também se começaram a libertar do fogo fátuo.

A polícia começou a investigação nesse mesmo dia. Tinha já começado a tentar descobrir quem era o acidentado que morderá naquele local. As investigações tinham necessariamente de prosseguir. Era importante compreender o ocorrido, identificar a vítima e avisar os familiares para a recolha do corpo na morgue e para as exéquias fúnebres. A Amaro isso pouco importava pois desaparecera, deixara de existir no tempo e espaço onde passara anos e anos. Amaro morreu.

Eu, personagem física desta história só soube da sua morte algum tempo depois. Enquanto narrador soube no momento. O primeiro passo da polícia foi o de se dirigir ao local do ocorrido e procurar a proveniência da vítima. Inspecionaram a posição do corpo em que a queda ocorrerá e, através da mesma conseguiram identificar o lado de que a vítima vinha. Desse lado da rua, nas proximidades, uma mercearia, pequena loja onde se vendiam quase todos os produtos estrangeiros e nenhuns portugueses; uma loja de perfumes, um restaurante e uma velha pensão. A primeira deslocação dos investigadores foi precisamente dirigirem-se ao restaurante.

Entraram, para espanto dos dois clientes que se sentavam numa mesa perto da porta e do empregado que estava do lado do balcão e, cumprimentando os comensais, dirigiram-se ao empregado e perguntaram-lhe se, mostrando a fotografia do morto, aquela pessoa tinha ali estado.

De longe, podia ver-se o abanar da cabeça pelo empregado a dizer não. De perto podia ver-se a mesma coisa porque o empregado não disse nada. Abanou só a cabeça. Agradeceram com palavras e foram embora. Entraram nas outras duas lojas que referimos e tiveram a mesma reação, restando-lhes apenas a pensão. Não seria a sua primeira escolha, o que, a meu ver, fazia deles maus investigadores, mas eles lá sabiam porque deliberadamente deixaram para último aquele lugar. Talvez fosse pela má fama que rodeava o local. Talvez fosse pelo mau feitio do recepcionista que era, ao mesmo tempo, o dono. Entraram e tocaram na campainha. O homem muito gordo não estava. Lá atrás ladrou um cão. Lentamente lá apareceu o homem, resmungando e limpando a gordura do canto dos lábios. Estava a comer algo muito gorduroso. Mas não interessava, pois conseguiu mastigar antes de falar com os polícias.

Se o conhecia? Claro que o conhecia. Esse tipo que desaparecerá há dias e não voltara para lhe pagar a conta. Ladrão!

O homem estava morto, disseram. Assim até estava bem mas era preciso pagar a conta. A polícia, a família, a segurança social, o exército da salvação, fosse quem fosse!

Levou-os até à sala onde o falecido tinha estado. Tresandava. Pelo chão, algumas baratas procuravam grãos de café. O homem da pensão balbuciou algumas asneiras e os polícias olharam-se com ar de quem, embora achasse aquilo surreal, já tivesse visto pior. Recolheram tudo, com luvas, à filme, e levaram para a esquadra.

 

(Para a semana, a cena continua na esquadra, se acharem bem.)

 

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