"O problema não é a Grécia. O problema é a Europa. Se a Europa não muda o seu modo de atuar – se não reformar a Zona Euro e recusar a austeridade – uma reação popular será inevitável. A Grécia poderia manter esse rumo. Mas esta loucura económica não pode continuar para sempre. A democracia não o permitirá. Quanto mais sofrimento terá que suportar a Europa antes que se restabeleça o sentido comum?” – Joseph Stiglitz ao “El País”
Domingo, 25 de janeiro, será dia de eleições na Grécia. Os gregos irão escolher o próximo governo que, no caso grego, só poderá governar se tiver maioria (com coligações ou não). O recém-criado “Syriza” de Alexis Tsipras parte como o grande favorito, mas contextualizemos umas eleições gregas que têm sido alvo de uma atenção sem precedentes.
Pré-Crise e Crise
Em 2000 a Grécia integrou o Euro-grupo, membro da CEE desde 1981, os gregos passaram a usufruir dos benefícios da moeda única, mas foram sempre muito relutantes, senão mesmo aversos, a qualquer medida ou reforma do sistema que lhes retirasse regalias, e diga-se que eram muitas, como o facto de haver várias profissões onde se podiam reformar com 53 anos.
A Grécia e a sua população, como em muitos outros países do sul da Europa, recorria ao crédito para resolver todos os seus problemas – este erro é culpa desses mesmos países, mas também uma União Europeia que o promoveu – acumulando dívida após dívida debaixo dos olhos da Europa. Strauss-Kahn, líder do FMI, em 2008 chegou até a apontar a Grécia como um exemplo para os países sul-europeus por ser o único que estava a crescer e a ganhar produtividade com a globalização económica.
Regime democrático desde 1974, a Grécia viveu períodos de estabilidade política ora pela mão do Partido da Nova Democracia (direita), ora pela mão do PASOK (esquerda).
A desvalorização do “dracma”, a moeda grega, era uma estratégia recorrente – de 1979 a 1992 desvalorizou perto de 85% – até 1992, quando a entrada no Sistema Monetário Europeu veio estabilizar as moedas europeias.
Com o acentuar dos desequilíbrios da balança do Estado a pressão externa avolumou-se para se realizarem privatizações. Os gregos eram, na sua maioria, trabalhadores independentes que declaravam menos rendimentos que o que era auferido na realidade ou simplesmente não declaravam nada, levando a que dois em cada três gregos não pagasse os impostos corretos.
O mesmo FMI, que em 2008 apontava a Grécia como exemplo, vem em 2010 dizer que a Grécia estava em recessão e tinha dificuldades profundas, dependendo do crédito externo e fazendo notar o aumento galopante da dívida pública.
Novamente o FMI, em 2013, veio de novo a público reconhecer que subestimou o efeito que a austeridade – imposta pelo programa de resgate de 2010 – traria à economia grega e que devia ter restruturado a dívida grega por ser insustentável.
O Banco da Grécia, numa publicação do ano passado definiu a sociedade grega como tendo preferência pelo consumo em detrimento da poupança e que os governos governaram com olhos postos nas eleições e não na realidade do país. Um país que usufruiu das regalias do euro, mas nunca cumpriu as obrigações que isso acarretava.
Em 2008, o governo da Nova Democracia tentara fazer uma reforma do sistema de segurança social, mas quer oposição, quer população se opuseram fortemente.
Em 2009, de novo com o PASOK no poder, as contas revelavam-se erradas e o défice era de 14% e não de 3,7% como havia sido mascarado. A Europa, e essencialmente a Alemanha, realizaram então pressões para que a Grécia vendesse ilhas ou ruínas – numa demonstração de imiscuição de um país, na política interna de outro Estado soberano.
O sistema político
No sistema político grego, uma república parlamentar, onde o Presidente da República é eleito pelo parlamento – unicameral e com 300 deputados – que tem um mandato por cinco anos. Sempre que não existe uma maioria parlamentar são realizadas eleições. Os partidos com menos de 3% não têm representação.
No país berço da democracia, o partido vencedor das eleições recebe automaticamente um bónus de 50 dos 300 lugares no Parlamento, uma medida que visa a estabilidade governamental.
Os principais partidos

Um dos dois grandes partidos históricos gregos. Estava no poder aquando da imposição das medidas de austeridade.
Nova Democracia (conservadores)
Completamente cilindrado pelos socialistas em 2009, foi oposição, opôs-se ao memorando com a troika, mas é favorável ao resgate internacional.

Era um dos partidos mais representados no parlamento. Defende a saída do euro e da União Europeia. Foi contra os termos do resgate internacional e tem liderado muitos dos protestos antigovernamentais.
“Syriza”
O “Syriza” era tido como uma coligação de esquerda radical. Constituído como partido há pouco mais de um ano, engloba eurocomunistas, ecologistas, trotskistas, sociais-democratas, entre outros. Foi inicialmente contra o resgate, mas à medida que foi subindo nas sondagens tem mostrado posições mais moderadas quanto aos compromissos assumidos.

É uma formação neonazi, contrária à imigração e à Europa. Em crescimento.

Criado em março do ano passado, o “To Potami” pode ser quem decidirá as eleições pela realização, ou não, de coligação. Liderado por um apresentador da televisão grega Stavros Theodorakis, o partido é pró-europeu e centrista, inspirando-se na social-democracia e liberalismo.
Contexto
Um artigo do “Observador”, “A crónica de uma tragédia moderna” situar-nos-á na Grécia atual, fazendo uma retrospetiva desde 2008.
O que está em risco na Grécia é a queda dos partidos do sistema – ND e PASOK – num parlamento que, pela obrigação de maioria absoluta, sempre representou a uma maior abrangência democrática e de opinião, fruto das coligações indispensáveis.
O que está em causa na Europa, é a eleição de um governo na Grécia – país resgatado – que poderá rejeitar as políticas de austeridade, e isso pode ter possíveis efeitos contagiantes para outros países numa situação semelhante como a Espanha, ou até Portugal.
Aliás, a pressão exercida sobre o povo grego para não votar no “Syriza” não tem comparação nos sistemas democráticos europeus, precisamente pelo receio de contágio e de uma mudança que possa abanar a fundo as estruturas europeias. Até entidades económicas, com culpas e interesses na crise europeia, como o “Goldman Sachs”, têm tentado condicionar as opções gregas.
O “Syriza”, tem vindo a equilibrar posições e a tomar o espaço da social-democracia. Esta moderação e fuga ao radicalismo fundador é expresso nas várias entrevistas dadas por Tsipras ou Stathakis.
Yorgos Stathakis, o responsável pelo programa económico do partido, em entrevista ao ABC espanhol, afirma que se a dívida grega e as políticas de austeridade não forem revistas, que será mais difícil ao país resistir à crise, pagar e honrar os seus compromissos.
Enquanto o “Syriza” subia nas sondagens, a estruturas europeias, e essencialmente a Alemanha, fizeram subir o tom das ameaças, referindo que a possível saída da Grécia da Zona Euro seria irrelevante.
Tsipras escreveu um artigo de opinião para o Financial Times onde revela que que a Grécia volte a ser um país livre e democrático e aponta para um conjunto de medidas económicas que visam um equilíbrio entre a austeridade e a humanidade, devolvendo o trabalho às pessoas. Mostrou ainda a vontade do “Syriza” em fazer reformas estruturais e combater a evasão fiscal, bem como assegurar a justiça social e um programa de crescimento.
No discurso de encerramento da campanha, na Praça Omonia, em Atenas – na companhia de Pablo Iglesias do espanhol “Podemos”, ao som de First we take Manhattan, then we take Berlim" de Leonard Cohen- Tsipras deixou recados à Troika, à Alemanha e a Merkel.
Perante milhares de pessoas, Tsipras fez várias referências ao “Programa de Salónica”, o programa económico do “Syriza” – defende teto para todos os sem-abrigo, reinstalação da eletricidade às famílias que deixaram de poder pagar a conta, aumento do salário mínimo para os 750 euros, garantia de cuidados de saúde a todos os que ficaram desprovidos de seguro e ajuda alimentar a crianças, num total de custos de 12 mil milhões de euros. Defendeu a renegociação da dívida e apontou o combate à crise humanitária como um dos principais objetivos.
Pretendem negociar um perdão parcial da dívida, estabilizar o sistema fiscal e taxar em 75% os rendimentos anuais superiores a 500 mil euros.
Quando Draghi anunciou a compra de dívida pública para salvar a zona euro, classificou a dívida pública grega e cipriota como não elegíveis para compra, num cenário que "talvez mude em Julho", data em que os programas de resgate da troika aos dois países forem ajustados; esta medida foi vista por muitos como mais um fator de pressão sobre gregos.
Num clima de suspense europeu, que se sucede a um período de informação e contrainformação sobre o “Syriza” e as suas intenções, o clima interno também não tem sido pacífico, já que cerca de 100 mil jovens – uma faixa etária maioritariamente afeta ao “Syriza” – não poderá votar por não terem sido recenseados a tempo (as eleições acontecem agora por ter sido falhada a escola de um presidente, no Parlamento grego, em dezembro passado), o que já levou a acusações de intencionalidade das forças no poder.
Muitos temem que o ““Syriza”” se torne o novo partido socialista grego; mas, aos olhos da direita europeia, o “Syriza” é comunista, e têm sido muitas as vozes que temem que este partido empurre a Grécia para fora do euro, concretize um programa de nacionalizações e acabe por levar o país à bancarrota.
Factos são que os membros do “Syriza” se tratam por “camaradas” e que a rádio do partido inicia a emissão ao som da “Internacional Socialista”, mas, por outro lado, Tsipras tem-se afastado desta imagem e têm-se mostrado cada vez mais moderado, quer no discurso, quer nas intenções.
A propaganda anti “Syriza” tem sido ainda marcada pela enfatização do radicalismo e da inexperiência. A direita alerta para, em caso de vitória do “Syriza”, a Grécia abrir portas à emigração e o PASOK até fez um anúncio televisivo em que um piloto anuncia aos passageiros que vai voar pela primeira vez, levando-os ao pânico. A esquerda ataca ainda o “Syriza” referindo que tomarão medidas como desarmar a polícia, tomar controlo de depósitos bancários e afrontar a Igreja Ortodoxa.
A austeridade cega fez disparar a pobreza e o desemprego na Grécia, o número de sem abrigo aumentou e há muitos que se suicidam em desespero. As pessoas estão cansadas e defendem que se houver mais impostos e aumentar ainda mais a austeridade que o resultado será nulo pois não conseguirão pagar. Deram quase tudo o que tinham por se manterem no “Euro” e fica-lhes a dúvida: terá valido a pena?
Mesmo deixando em aberto que o “Syriza” possa não cumprir o que diz, o povo grego vê nele a única saída para o problema, a começar pelas faladas mudanças na economia e no trabalho, que colocam em causa todo o sistema económico e político.
O sentimento dos gregos é que pior do que está não ficarão e que alguma coisa tem que mudar.
Sondagens
Todas as sondagens apontam para uma vitória do “Syriza”, naquela que é uma mostra clara de vontade de mudança de política e dos atores habituais. Com um resultados entre os 31 e os 34%, o “Syriza” falhará, segundo as mesmas sondagens, a maioria absoluta, o que os obrigará a coligar-se com outro partido, ou partidos, para formar governo; tarefa que não se adivinha fácil.
O ND rondará os 27%, o KKE 5%, o “Aurora Dourada” 5,55 e “To Potami” 6%, mas ainda há cerca de 7,5% de indecisos. O PASOK, um dos partidos históricos registará somente cerca 4% e, apesar de não excluírem uma aliança com o partido de Tsipras, Tsipras recusa.
Este resultado do PASOK deve-se à responsabilização pela crise grega e ao facto de muitos dos seus quadros terem optado por integrar o “Syriza”, atraídos por um corte com o sistema de poder habitual e por uma frescura ideológica.
Sem maioria, o “Syriza” ver-se-á obrigado a coligar-se e se forem excluídas as forças dominantes do poder – PASOK e ND -, os comunistas do KKE – que continua a olhar para o “Syriza” como concorrência direta –, e os neonazis do “Aurora Dourada”, sobram duas opções válidas ao “Syriza”: o “To Potami” e os “Gregos independentes” – partido nacionalista e eurocético.
Pós-eleições
Tsipras e o “Syriza”, mais que prováveis vencedores das legislativas de domingo, terão a vida complicada.
Primeiro porque são um partido que nasce e cresce do desagrado, logo, desaparecerá se o mesmo desagrado se mantiver em relação ao seu trabalho e ao incumprimento das suas promessas.
Segundo, a velha Europa olha para o “Syriza” com desconfiança, já se falou na posição de Draghi e do BCE que só ajudará a Grécia se se mantiver o cumprimento do programa de resgate previamente negociado.
Já em Fevereiro, o novo governo terá que negociar com a “troika” os moldes em que o memorando terminará e terá que iniciar a aplicação de reformas. E, no verão, os gregos terão que pagar cerca de 50 mil milhões de euros de empréstimos.
Diz-se nos bastidores da política grega, que os especialistas do ND prepararam esta situação de modo a que o “Syriza” se autodestrua, reconquistando em seguida o poder.
Contudo, e se esta possibilidade for real, os nacionalistas neonazis da “Aurora Dourada” poderão também ver reforçada a sua posição e ter uma palavra a dizer no futuro da política grega.
Domingo, 25 de janeiro, cerca das 17 horas em Portugal, já haverão mais certezas.
Mais informação em:
A Grécia antes da Crise: http://observador.pt/especiais/que-pais-era-grecia-antes-da-crise/
Partidos Gregos: http://www.dn.pt/inicio/globo/interior.aspx?content_id=2488114&seccao=Europa
11 coisas que se dizem em Atenas antes das eleições: http://observador.pt/2015/01/21/11-coisas-que-se-dizem-em-atenas-sobre-proximas-eleicoes/
Crónica de uma tragédia moderna: http://observador.pt/especiais/cronica-de-uma-tragedia-moderna/
O que levou às eleições: http://www.publico.pt/mundo/noticia/grecia-falha-eleicao-de-presidente-e-vai-ter-legislativas-antecipadas-no-inicio-de-2015-1680697
Artigo de opinião de Tsipras ao Financial times: http://www.ft.com/intl/cms/s/da236d24-9ff9-11e4-9a74-00144feab7de,Authorised=false.html?_i_location=http%3A%2F%2Fwww.ft.com%2Fcms%2Fs%2F0%2Fda236d24-9ff9-11e4-9a74-00144feab7de.html%3Fsiteedition%3Duk&siteedition=uk&_i_referer=#axzz3PRM8W8XS
Entrevista ao responsável do programa económico do “SYRIZA”:http://www.abc.es/internacional/20150121/abci-entrevista-responsable-programa-economico-201501201952.html
Saída da Grécia do Euro http://www.spiegel.de/international/europe/merkel-and-germany-open-to-possible-greek-euro-zone-exit-a-101
Último discurso http://www.dn.pt/inicio/globo/interior.aspx?content_id=4357959
Um membro do “Syriza” no poder: http://observador.pt/2015/01/22/um-membro-do-”Syriza”-ja-chegou-ao-poder-chama-se-rena-dourou-e-governa-2-milhoes-de-gregos/
Economia grega:http://www.jornaldenegocios.pt/economia/detalhe/gregos_deram_quase_tudo_pelo_euro_valeu_a_pena.html
Sondagens:
http://expresso.sapo.pt/”Syriza”-mais-perto-da-maioria-absoluta-na-grecia=f907007#ixzz3PkdOO6UY
http://www.ionline.pt/artigos/mundo/grecia-”Syriza”-volta-dominar-sondagens-poucos-dias-das-eleicoes
http://www.rtp.pt/noticias/index.php?article=798194&tm=204&layout=121&visual=49
http://economico.sapo.pt/noticias/”Syriza”-sai-reforcado-nas-sondagens_209125.html
Pesquisa, tradução e adaptação de Luís Carapinha


