Eu vejo-a. Eu vejo a linha. Está negra com pitadas de sangue a declamar o mesmo poema de amor. Outra e outra vez. É um ciclo.
Não consigo pisa-la. Não posso pisa-la. Não posso sobrepor. Além de ser perigoso, acabaria por encerrar os olhos com a consequência de não os voltar a abrir.
Ao som do ponteiro do relógio, quando toca uma hora certa, a linha dança e uma lágrima é derrapada, colidindo com o sangue e este espalha-se. Está em mim agora. O perigo está em mim. Sou eu. Eu sou o perigo. Eu sou risco.
Engulo em seco.
Com a carga às costas, a minha coluna inclina. Consigo perceber melhor o destino final da linha. Ou pelo menos tentar. Está longe. Muito longe. Desfocado e imprevisível.
É de madrugada e a linha entre tremores correu. Quando pensava estar tudo sob controle, ela deu passos maiores que as minhas pernas. E perdi-a.
E não há rastos.
Entre uma visão de dedos cruzados e olhares intensos sob a mesma.
Escapou-me.
Para sempre.
