17 Outubro 2020      12:05

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Don Ki

Sozinho. Era um ser que estava sempre sozinho. Numa vida como a sua, a companhia era algo raro e quando acontecia, não era nada de positivo que a acompanhava. Chamava-se Ki e toda a gente o tratava por Don Ki. Talvez por ter nascido e por viver na Coreia, mas era uma forma de respeito. Pelo menos assim pensava.

Don Ki nascera numa província longínqua do pais, muito longe do paralelo 39. Nunca tinha ido a Seoul nem sabia que lá tinham tido lugar jogos olímpicos há muitos anos. Já teria nascido nessa altura mas não tinha televisão.

Era ser que não se interessava por esses fait divers. Havia, porém, algo que o perturbava imensamente e que tanto o preocupava e tantas vezes lhe tirava o sono. A sua teimosia era evidente e realçava claramente o seu estatuto social, pensava ele.

Não havia nenhum outro ser que pudesse assemelhar-se a ele, a ser tão solicitado para trabalhar os campos quanto ele. Tinha-se em tão elevada conta Don Ki que achava que os terrenos que calcorreava, arrastando um arado eram seus. Aquele ser que conduzia o arado era apenas um subalterno seu e não merecia sequer o seu reconhecimento. Don Ki dava-lhe apenas um relincho sem qualquer laivo de consideração. As terras eram suas e o objetivo era deixar os campos férteis e providenciar que as suas terras fossem rentáveis, quando transportasse os produtos para o mercado onde os plebeus compravam

Os seus produtos.

Don Ki usava sempre um chapéu que o impedia de ver dos lados. Ou seja, a sua visão periférica era nula. Terá isso contribuído para a sua solidão e personalidade egocêntrica? Provavelmente, mas nunca saberemos ao certo, porque nunca se sabe ao certo as implicações que a psiché de um ser que vive no seu mundo, sem uma percepção clara da realidade e do que o rodeia. Don Ki era assim. Vivia no seu mundo de teimosia, de grandiosidade e de mundo paralelo, circunscrito por palas. Não era mau ser, tinha um bom fundo, apesar de tudo o incomodar e de tratar todos com desdém. Afinal era Don de título e Ki de nome de familia.

Assim passava os seus dias e vivia a sua vida de lorde. Se tinha famílias rivais que competiam com o seu poder? Claro que sim.

Abominava os Equus que eram os donos das terras adjacentes. Gente desprezível, altiva, sem consideração pelos vizinhos, pelos árduos trabalhadores. Relinchavam como quem comandava exércitos e tinha, em vez de um manto, uma farta crina. Emproado, cheio de si, seu cavalo! Pensava Don Ki.

Equus ignorava o vizinho. As únicas coisas que interessava a este vazio e desprezível, arrogante, atroz ser (na perspectiva de Don Ki) eram duas: a sua própria vaidade e a sua dama de eleição que tanto perseguia... a menina Ek Wa.

Don Ki quando a vira também se apaixonara, e sabia que não ia dar certo, ainda sem saber que daria mau resultado. Da sua relação sairiam rebentos a quem teriam de chamar Má Xo ou Mu La, atendendo ao seu género.

Ela amava o outro e o nosso protagonista tomou uma decisão. Decidiu continuar a concentrar-se em si e nas suas terras e abandonar coisas do coração. Continuou, de chapéu de palas, a olhar para o fim das suas terras, sem olhar para as distrações vizinhas.

Assim, pensava ele, e quem não lhe daria razão, evitava perder o domínio do poder Ki tinha e continuaria a dominar as suas propriedades. Isto porque o coração vai mas a terra permanece.

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