20 Abril 2019      00:38

Está aqui

Cá ou lá?

Marisela Archeira tinha cara de poucos amigos e um feitio como havia poucos. A senhora destacava-se na comunidade onde residia por ser a mais rígida das mulheres. Daí teria surgido a sua alcunha Archeira, isto porque atirava e acertava a direito!

Marisela Archeira tinha nascido de uma família de nome, rica e com propriedades. Mas Archeira não era do tipo emproado que ficava usando vestidos de fole e não se preocupava com o bem estar dos seus bens. E bens tinha em género, espécie e numerário.

Marisela Archeira tinha vacas, cabras e ovelhas. Tinha galinhas, coelhos e fracas.

Era ela que, junto com os seus empregados ordenhava uns, sacava os ovos aos outros e degolava ou dava uma cacetada na nuca quando necessário. Deixo ao senhor leitor a ideia de quais. Porém, a vida de Archeira mudou quando o próprio Cupido lhe espetou uma seta no seu coração forte e frágil ao mesmo tempo.

Certo dia, um estrangeiro que não falava a língua apareceu naquelas bandas, perdido, vestindo fato e gravata. Parecia o Borda D’Agua embora fosse apenas um vendedor de banha da cobra. Tinha, no entanto, os olhos azuis mais intensos que alguma vez tinha Marisela Archeira visto!

Deixou a vaca que estava a ordenhar a nossa pobre donzela e caminhou na direção do homem que descia do burro, transporte de luxo na altura. Apesar de frágil, caminhou com um ar de forte e os seus calores começaram a subir, tanto que teve de desapertar o primeiro botão da camisa, tal não era a confusão que aquele homem a fazia sentir.

Marisela estava apaixonada e é mais ou menos isto que as as pessoas sentem quando se apaixonam. Não percebia uma palavra do que o homem dizia: Au Ar Iu? Ai sele cobra. - aí sim senhor, é muito bem parecido. Pena que não te perceba. Mas se quiseres que eu compre isso, fico com tudo!

E assim foi, a banha da cobra ficou toda na herdade bem como o ladrão do coração de Marisela. Nessa noite jantaram e consumaram. Ele começou a aprender as coisas da quinta e até tinha já criado boas relações com os empregados, aprendendo inclusivamente umas palavras de português.

Marisela é que não percebia ainda nada de inglês e isso fazia-lhe pena. Tomou uma decisão um dia e disse ao marido. (Entretanto tinham casado e tinham já 4 filhos).

Marisela disse: maraide, mai love. Decidi irmos para a Inglaterra uns tempos. Vejo-te a ficar doente com saudades lá dos teus lados e entre cá ou lá, temos de decidir dar um bocado aos dois. Aqui na herdade o João tratará do gado e é homem honesto.

Levamos os gaiatos e passamos lá os meses de verão. Sim, porque aquilo no inverno não se deve gramar! E o frio faz-me frieiras.

O homem sorriu. Tinha muitas saudades da sua terra, como todos temos. Ao vermos o lugar de onde viemos, os nossos olhos enchem-se de luz e fazem os músculos abrir e sai um sorriso.

Num dia de maio lá chegaram a terra do vendedor de banha da cobra que já não vendia nada e era co-proprietário daquela herdade. Tudo lhe parecia diferente mas estava orgulhoso de apresentar a sua mulher que, embora de jeitos meio rudes, sabia causar boa impressão.

Marisela depressa se apresentou e disse a todos que se chamava Mary Archer. E assim ficou conhecida lá. Gostava de viver ali. Cá e lá, diferentes nomes mas a mesma pessoa. Marisela Archeira ou Mary Archer, dependia da altura do ano.

 

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