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MÃO FURADA

As noites frias de que vos falei na semana passada, depois das papas de milho, barriga já cheia, bochechas rosadas e uma vontade de dormir imensa, levavam os pequenos as barrigas cheias para a cama e deitavam-se debaixo dos lençóis e das mantas quentinhas que afugentavam, ainda que pouco no início, o frio que rodeava toda a casa e conseguia entrar pelas brechas da janela e por debaixo das portas.

PAPAS DE MILHO

Estes dias frios de Inverno que agora se aproximam trazem-me à memória aquelas noites meio frias da minha infância, quando ainda não tínhamos eletricidade em casa. Devia ter aí uns cinco anos. Naquele tempo, anos 80, ainda muitas infraestruturas estavam por construir nos perdidos montes da Serra do Caldeirão.

O MISTÉRIO DO GRILO QUE NÃO FAZIA BARULHO

Encontraram-se perto da meia-noite, junto do aquário, atrás do parque da cidade, às escuras para não dar muito nas vistas em relação ao propósito do seu encontro. Não, não era nada disso que estão já a pensar. Não se iam encontrar para conspirar nem para fazer poucas vergonhas. Isso não era história para ser contada aqui, nem haveria tempo de desenvolver todo o enredo… só eles sabiam o que se poderia dizer… Nas mãos, lanternas a pilhas, na cabeça, gorro e cachecol a tapar a cabeça. Iam preparados para qualquer eventualidade.

VINHETA DE AUTOCARRO II

(Conto em três partes)

De casaco cinzento, impermeável, às riscas, de um amarelo esverdeado e fluorescente, as botas plásticas, quentes, que lhe protegiam os pés e que, ao mesmo tempo, acomodavam micoses contínuas, António não era um homem feliz e não sentia que o dia de amanhã fosse um dia mais feliz que o de hoje. O hoje e o amanhã eram o que eram e não eram mais do que um contínuo passar de horas e de rotinas que só faziam sentido para alguns, para os ambiciosos.

VINHETA DE AUTOCARRO I

(Conto em três partes)

Chamava- se António. António Mendes. Era assistente operacional da Câmara Municipal e não era um homem feliz. Não encontrava felicidade nos livros que recolhia nem nas revistas que, avidamente, folheava, dia após dia. Nada que o pudesse fazer passar de um homem triste e fechado sobre si mesmo para um homem ambicioso e feliz.

OUTONO

As árvores começam a ficar empolgadas com a mudança. Sabem que vão ficar com cores diferentes. Castanhas, amarelas, um verde disfarçado de quase vermelho, as folhas, as roupas, a sua folhagem que daqui em diante se desnuda e veste de noiva no inverno.

NÚMEROS PRIMOS

Eram dois primos. O Zé Sete e o António Onze. Eram primos por parte da mãe e tinham nascido na mesma aldeia do distrito de Beja. Moravam na mesma rua, com um intervalo de três casas entre eles. Eram, além de primos, muito amigos e tinham, desde que nasceram praticamente, brincado sempre juntos e passado tempos e tempos fazendo corridas de carrinhos de rolamentos na eira perto da aldeia. Um, como dizia o sobrenome, tinha sete anos e o outro onze. Isto para não divergir do que até aqui se tem dito das famílias.

A CAPELINHA

Lá em cima, a meio do monte, num planalto rodeado por azinheiras, sobreiros e medronheiros, ficava uma capelinha branca, branca por causa das suas paredes grossas pintadas na mais pura cal. No meio da encosta verde, onde o vento soprava canções que o tempo reconhecia, a capelinha sentava-se na encosta e assistia à passagem desse mesmo tempo que o vento contava. A sua porta de entrada era feita de duas partes, numa madeira maciça tão forte que cinco homens não a conseguiriam derrubar mesmo que quisessem.

CAMPOS ALENTEJANOS

Não há coisa mais bonita do que um campo doirado e roxo misturado no meio das árvores. É um tapete colorido como os de Arraiolos, tão perfeito e tão bem desenhado que é o segredo da sua construção. Não parece haver nele grande ciência escondida, mas há. Como parece não haver segredo na disposição das estrelas dos céus, desenhadas em perfeição e colocadas no sítio certo, o segredo que as junta foi descoberto há tantos e muitos anos quantos a civilização humana.

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