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ARROZ DE TAMBORIL

Era um domingo normal, como qualquer domingo que seja passado em casa e em família. No céu uma ou duas nuvens quebravam a monotonia do azul e deixavam antever um dia não muito quente, sem ventos fortes nem possibilidades de aguaceiros. Na casa número 134 da rua da Agonia, uma casa estreita em frente mas longa em comprimento para a parte de trás, onde ainda tinha um jardim amplo, onde estavam duas oliveiras, um limoeiro, um pessegueiro e duas laranjeiras. Fazia lembrar a forma como as casas holandesas se distribuem na cidade. Vi isso pela primeira vez em Malaca.

PÉS LAVADOS

Descontraído. Sentado na varanda do meu minúsculo apartamento, num tórrido dia de Verão, olhava para o mar em frente, através de um olhar escurecido pelos óculos de Sol vintage. O prédio ficava num décimo segundo andar e não era, em nada, diferente, de todos os outros que se dispunham virados para o oceano. Era um dia quente. Tão quente quanto todos os outros antes, começando a contas nos catorze dias em que estava na praia.

TI XICO

Ti Xico Tirador só saía do monte nos meses do Verão e ficava por fora a temporada quase toda. Ti Xico Tirador ganhara a alcunha por passar os meses de verão de machado na mão a tirar cortiça nas planícies do Alentejo. Filho de gente humilde, nascido num monte isolado no meio dos montes, Xiquinho depressa foi crescendo e passou a Xico Tirador e, mais tarde, já na segunda parte da vida, passou a ser o Ti Xico Tirador em sinal de respeito por todos os seus pares e pelos mais novos.

A MARCA D’ÁGUA

No leito da morte, a mulher que tinha vivido mais tempo que todos os que nasceram depois dela, sentia-se pronta a abandonar as dores do corpo físico. Não tinha já nada mais a fazer no círculo que se tornara a sua vida. Deitada na cama, tapada com as mantas que ela própria fizera e tecera ao longo dos muitos anos em que pode trabalhar, custava-lhe a respirar. Os seus olhos azuis já quase brancos até na menina, afetados pelas cataratas tinham dificuldade em ver fosse o que fosse. Viam apenas as sombras que, naquele dia, se movimentavam mais do que em todos os dias anteriores.

SURICATAS

Deve ter sido aí há uns 8 anos. Vivia na África do Sul, então. Há já algum tempo, nos meus anos mais jovens, onde a experiência não era a de hoje nem as imagens que tinha gravadas na mente chegavam ao número das que se guardam hoje. Muitas delas apaguei-as propositadamente, outras por lapso, outras, então, como mera limpeza de ficheiros temporários. A nossa mente tem, de facto, aspetos singulares e, um deles é a nossa capacidade de escolher e de nos permitirmos ser as memórias ou ocultar as mesmas.

A FOTOCOPIADORA

Tirava fotocópias. Digitalizava documentos. Tirava cópias a preto e branco e a cores. Ao lado, uma mulher operava a fotocopiadora. Tinha resmas de papel na sala, junto dessa máquina, e replicava documentos, fotografias, originais e já os duplicados. A sala onde a cena se passava não era muito grande, tinha o soalho em madeira, em pequenos tacos encerados que tinham já saído e voltados a ser colados.

O CÉU AZUL

Do céu azul viam-se as planícies secas do Alentejo. Na imensidão do restolho, já despojado do trigo que nele nascera, estava a terra seca, castanha e dividida entre torrões. Não se viam, na distância do doirado e de uma ou outra interrupção verde e castanha dos sobreiros e azinhos que subsistiam, diferenças. O Sol, esse, difundia calor em toda a planície como se fosse um aquecedor a gás e quisesse deixar as ondas de calor invisíveis a queimarem a pele dos que, a esta hora do dia, se aventuravam no meio do campo.

O ESQUECIMENTO

No monte ermo do meio da Serra do Caldeirão, havia um lugar de que toda a gente se tinha esquecido. Ninguém se lembrava do nome do sítio. Nele moravam ainda duas pessoas às quais o tempo já tinha passado ao lado e não pensava voltar. O monte era longe e o lugar nunca fora perto, nem quando construíram a estrada nova de terra batida.

JOGO DE CARTAS

Manuel só tinha um vício: jogar às cartas. Jogava todas as tardes. Jogava sempre com o mesmo humor, à bisca, à sueca, aos três setes e à lerpa. No clube recreativo, lá no meio da vila, mal passava a hora de almoço, lá se dirigiam, Manuel e os seus amigos, para mais umas partidas. No meio, umas minis frescas pagas pelos que perdiam. Ora venha lá mais uma rodada. O jogo exigia sempre muita concentração. Nem sempre a habilidade servia para ganhar o jogo. Dependia muito da mão e da capacidade do parceiro para perceber a comunicação não-verbal e os trunfos. A qualidade das cartas, já gasta de tanto jogar, ajudava a conhecer o baralho e Manuel era um dos mais experientes. Já nem se lembrava bem da última vez que tinha perdido um jogo.

A VISITA

‘Há visitas que esperamos e acabam por chegar e há visitas que não esperamos e chegam sem nos avisar. Não gosto de chegar sem avisar, nem gosto de chegar tarde. Surpresas também não é muito comigo.’ – iniciava-se assim o discurso do convidado de honra do evento que se realizou na sala de visitas do Museu. E tudo em honra de um quadro pintado há uns anos largos. Não era um quadro muito grande. Era, aliás, o mais pequeno e singelo do pintor que o tinha imaginado e criado.

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