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CEBOLAS

Hoje de manhã, aí por volta das nove horas, ia no metro em direção ao centro de Nova Iorque, metro cheio, gente de todo o feitio e dei por mim a pensar. Não raro penso quando estou sozinho e estou-o muitas vezes. É bom pensar, concordar com e discordar de. Perdoe-me lá o uso da preposição no final da frase, mas há vezes em que a própria gramatica nos intriga e faz pensar porque é que em papiá kristang se chama ossulíngua. Haverá uma explicação tão certeira como a de muitas outras coisas cuja explicação é tão evidente e não obstante nos escapa.

AS FIGURAS DE CERA

O tempo passa a fugir ou a correr, como preferirem. As coisas que o tempo ajuda a passar a fugir ou a correr não são nem mais nem menos do que um pequeno lago cheio de água que seca no verão e se enche no inverno. Com as primeiras chuvas vêm as primeiras vidas a nascer lá dentro. Os girinos vão crescendo e mutam-se para outra coisa. As pequenas poças de água são fonte de vida.

O CESTEIRO

As mãos do Ti Feliciano Costa eram envelhecidas e gastas pelo tempo. Eram mãos deformadas pela artrose e gretadas do frio e do trabalho. Os seus dedos, grossos, já não se endireitavam. A imagem mais clara que tenho de si é a de um homem envelhecido, cansado, curvado pelo tempo, que se sentava numa cadeira de madeira em frente à porta da velha casa de taipa, ao lado da ribeira, onde a mesma curvava e que passava a tarde a manusear o vime, fazendo cestos de todo o feitio.

LINHAS CRUZADAS

Os comboios são lagartas que deslizam em linhas de ferro. São lagartas às cores, cinzentas, vermelhas, azuis e amarelas. Nas linhas de ferro, frias e desumanizadas, os comboios deslizam suavemente como se fossem lagartas. Em carreiros como aqueles que as formigas fazem, deslocam-se de um lado par ao outro, cheios de gente lá dentro.

O MOLEIRO

Estive, no passado sábado, no aniversário de uma Escola (Antero de Figueiredo-Farmingville) que, durante a festa, professoras e alunos nos apresentaram profissões extintas ou em vias de extinção em Portugal.  Tive, aí, o enorme gosto de recordar antigas profissões que, algumas conheci, outras nem tanto, pela distância em que eram exercidas ou pela não existência desde que me conheço como pessoa.

UM FRASCO DE MEL

Margarida era uma abelha, uma abelha fofa e trabalhadora que tinha umas asinhas pequeninas e um ferrão afiado. Mas era fofinha e trabalhadora. As patas andavam constantemente cheias de pólen. Tinha uma cor de abelha normal, guerreira. Uma das milhares que constituíam o enxame das abelhinhas. A vida de Margarida, a abelha fofinha, era monótona, seguindo os nossos padrões. Não havia na ideia da abelha Margarida vontade mudar, mas a pobre abelhinha não conhecia mais nada.

DIA DE CHUVA

Chovia como quem na derramava. Era tanta a água que, deste lado do vidro, esvaziava os pensamentos enquanto os baldes se enchiam, lá fora, apanhando a água que os beirais retiam também. Os meus olhos fixavam-se num ponto que mudava constantemente e parecia que nada fazia sentido… as imagens não paravam de correr e o desconcerto era total. Não se admirem, pois, se as minhas imagens que veiculo neste texto, não façam sentido, elas também.

ÉS.

Não te julgues. Não te deves julgar. A cada passo, cada pensamento, a tua mente entope-se de ideias sem que tenham nexo algum ou que constituam em ti uma voracidade de te conheceres melhor. Não te queres conhecer. És. Existes aqui e agora, não te interessa o futuro e o passado, esse não o podes mudar.

GAMBOZINOS

Quando eu era novo, era caçador e pescador. Desportivo. Adorava caçar e ir à pesca. Nada me dava tanto prazer como perder-me pelos campos e nos ribeiros e rios com os amigos, à caça e à pesca. Nos campos perto de casa e mais longe, a muitos quilómetros de distância, partíamos em carrinhas cheias de gente. Grandes grupos de amigos que se juntavam aos fins-de-semana para umas boas caçadas. Muito mais do que uma caçada ou pesca, era uma oportunidade de celebrar a amizade.

SANDES DE COURATOS OU A FEIRA

Bem me apetecia agora uma sandes de couratos. Dizia o homem para a mulher na carrinha Nissan de caixa aberta. Iam os quatro lá dentro. O homem, a mulher, o filho de 10 anos e a filha de oito. A mim o que me apetecia era uma fartura, com o açúcar e a canela em volta, ainda quentinha. Ai, aquele cheirinho que sai do carro das farturas. A mim, era mesmo um frango assado, mãe. Lá na roulotte do senhor António. Um frango, batatas fritas e uma salada, com um Sumol fresquinho. Ai, que saudades. Pai, nunca mais chegamos à feira? Dizia a mais nova da carrinha.

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