Está aqui

Artigos publicados

A TASCA

O Manuel entrou na tasca da aldeia num dia de chuva e de vento. Estas alturas do ano eram cheias de vento, frio e água que caía dos céus como se alguém a estivesse a despejar a partir de um daqueles baldes chuveiro que Manuel usava naquela divisão da casa, que era como se fosse uma casa de banho. A sua mulher, Antónia, aquecia a água à lareira e, nesse balde, dentro do alguidar, Manuel tomava banho aí de oito em oito dias, porque o processo era moroso e complicado.

CINCO ESCUDOS

Mariazinha ia fazer o exame da quarta classe dali a um mês. Morava num monte perdido no meio da Serra do Caldeirão a que davam o nome de Lontra, talvez relacionado com o animal em si que, até há pouco tempo atrás, fazia parte destas serranias. Mariazinha vivia com os seus pais e irmãos. E eram muitos. Não tinham eletricidade. Estrada de alcatrão e saneamento básico eram desconhecidos também. Aliás, não fariam ideia, por muitos anos, do que isso poderia ser. Nunca tinha sido até aí e aquelas coisas que nunca vimos, nunca conseguiremos imaginar o que são até que alguém registe a patente da invenção. Já tinham inventado a eletricidade neste mundo, mas lá ainda não se sabia o que era.

OS GIRASSÓIS DE SAIGÃO

Cheguei a Saigão, que hoje já não se chama assim. Hoje é Ho Chi Minh. Cidade com o nome do fundador do moderno Vietname. Lembro-me e recorro ao nome Saigão à luz daquilo que escreveu Marguerite Duras. Nos tempos da presença francesa, uma história de amor n´O Amante.

TRAÇADO GEOMÉTRICO

Um homem caminhava com o guarda-chuva a evitar que as poucas gotas que começavam a cair o molhassem. Caminhava envergando um sobretudo azul escuro e com o pensamento em coisas urgentes que o levavam ao destino. Debaixo do sobretudo um fato, impecavelmente limpo a seco. Na rua onde caminhava viam-se desenhados em cubos claros e escuros coisas várias que podiam fazer viajar a nossa imaginação.

TEMPO E PARALELOS

Nos meus 35 Anos, 11 Meses e 10 Dias, terei agora 431 meses, 13128 dias, 315084 horas, 18905094 minutos e 1134305671 segundos de vida, à hora que escrevo. Contabilizarmo-nos é sempre um exercício interessante. Ajuda-nos a ter noção de nós próprios, a avaliarmo-nos quantitativamente ao mesmo tempo que enquadramos a nossa vida qualitativamente naquilo que contamos. Outros há que terão muitos mais anos do que eu. Muito mais experiência no caminho percorrido e nas viagens das nossas vidas. Cada dia que passa, cada hora e cada segundo é uma nova aprendizagem.

NASCIMENTO |

"O dia pertencia ao último mês do ano, esse mês em que começa o Inverno e se sucedem geadas e frio, em que as lareiras aquecem as casas e as chaminés emanam fumo e enchem os céus, confundindo-se com as nuvens. Parece que poderia ter sido hoje, neste mesmo dia em que se conta este pedaço de história, mas não… aconteceu há muito tempo, tanto tempo quanto as palavras que contam histórias.

PARTIDAS

Nos aeroportos, nas estações de comboios, na nossa vida, em todos os lugares que conhecemos, entramos, há sempre duas portas. Podem ser a mesma, mas são diferentes no momento em que as transpomos. Neste dia em que escrevo, vejo duas. Uma diz partidas e a outra mostra chegadas. Parto de um sítio e chegarei a outro lugar. Para mim, como para qualquer um de nós, não será sempre aquele que planeei nos meus desejos, nas minhas vontades. Será aquele onde tenho de ir, aquele onde devo ir. O lugar. Neste momento, o meu lugar.

O SEGREDO

Sentadas à mesa do café, duas mulheres, uma agitava-se na cadeira, impaciente e incomodada. Havia um segredo que precisava contar, mas não sabia como nem conhecia o momento certo em que o poderia contar. A outra mulher olhava-a com olhar expectante e ansioso. Era aquele momento que marcaria a conversa. Que poderia de tão importante ter para falar aquela mulher com a outra? Nenhuma das duas queria dar o primeiro passo e começar a contar ou perguntar o motivo de tão insólito encontro. Havia um segredo, isso já ambas sabiam.

OXALÁ

os dias em que nada acontece deste lado do rio, oxalá acontecesse uma novidade. Mesmo que fosse uma pequena novidade, seria suficiente para terminar o marasmo em que os dias se transformaram.

LIFAU

Hoje é mais um dia no calendário do mundo e naquele das nossas vidas. Hoje é mais um dia em que o Sol nasce a oriente e ilumina a terra, transforma os campos escuros, as altas montanhas, que parecem tenebrosas, em subtis cores que deambulam o amarelo, o castanho e o verde, conforme o dia vai progredindo.

Páginas