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A MARCA D’ÁGUA

No leito da morte, a mulher que tinha vivido mais tempo que todos os que nasceram depois dela, sentia-se pronta a abandonar as dores do corpo físico. Não tinha já nada mais a fazer no círculo que se tornara a sua vida. Deitada na cama, tapada com as mantas que ela própria fizera e tecera ao longo dos muitos anos em que pode trabalhar, custava-lhe a respirar. Os seus olhos azuis já quase brancos até na menina, afetados pelas cataratas tinham dificuldade em ver fosse o que fosse. Viam apenas as sombras que, naquele dia, se movimentavam mais do que em todos os dias anteriores.

SURICATAS

Deve ter sido aí há uns 8 anos. Vivia na África do Sul, então. Há já algum tempo, nos meus anos mais jovens, onde a experiência não era a de hoje nem as imagens que tinha gravadas na mente chegavam ao número das que se guardam hoje. Muitas delas apaguei-as propositadamente, outras por lapso, outras, então, como mera limpeza de ficheiros temporários. A nossa mente tem, de facto, aspetos singulares e, um deles é a nossa capacidade de escolher e de nos permitirmos ser as memórias ou ocultar as mesmas.

A FOTOCOPIADORA

Tirava fotocópias. Digitalizava documentos. Tirava cópias a preto e branco e a cores. Ao lado, uma mulher operava a fotocopiadora. Tinha resmas de papel na sala, junto dessa máquina, e replicava documentos, fotografias, originais e já os duplicados. A sala onde a cena se passava não era muito grande, tinha o soalho em madeira, em pequenos tacos encerados que tinham já saído e voltados a ser colados.

O CÉU AZUL

Do céu azul viam-se as planícies secas do Alentejo. Na imensidão do restolho, já despojado do trigo que nele nascera, estava a terra seca, castanha e dividida entre torrões. Não se viam, na distância do doirado e de uma ou outra interrupção verde e castanha dos sobreiros e azinhos que subsistiam, diferenças. O Sol, esse, difundia calor em toda a planície como se fosse um aquecedor a gás e quisesse deixar as ondas de calor invisíveis a queimarem a pele dos que, a esta hora do dia, se aventuravam no meio do campo.

O ESQUECIMENTO

No monte ermo do meio da Serra do Caldeirão, havia um lugar de que toda a gente se tinha esquecido. Ninguém se lembrava do nome do sítio. Nele moravam ainda duas pessoas às quais o tempo já tinha passado ao lado e não pensava voltar. O monte era longe e o lugar nunca fora perto, nem quando construíram a estrada nova de terra batida.

JOGO DE CARTAS

Manuel só tinha um vício: jogar às cartas. Jogava todas as tardes. Jogava sempre com o mesmo humor, à bisca, à sueca, aos três setes e à lerpa. No clube recreativo, lá no meio da vila, mal passava a hora de almoço, lá se dirigiam, Manuel e os seus amigos, para mais umas partidas. No meio, umas minis frescas pagas pelos que perdiam. Ora venha lá mais uma rodada. O jogo exigia sempre muita concentração. Nem sempre a habilidade servia para ganhar o jogo. Dependia muito da mão e da capacidade do parceiro para perceber a comunicação não-verbal e os trunfos. A qualidade das cartas, já gasta de tanto jogar, ajudava a conhecer o baralho e Manuel era um dos mais experientes. Já nem se lembrava bem da última vez que tinha perdido um jogo.

A VISITA

‘Há visitas que esperamos e acabam por chegar e há visitas que não esperamos e chegam sem nos avisar. Não gosto de chegar sem avisar, nem gosto de chegar tarde. Surpresas também não é muito comigo.’ – iniciava-se assim o discurso do convidado de honra do evento que se realizou na sala de visitas do Museu. E tudo em honra de um quadro pintado há uns anos largos. Não era um quadro muito grande. Era, aliás, o mais pequeno e singelo do pintor que o tinha imaginado e criado.

A PERUCA

Há muitos anos atrás, dezenas deles, não sei bem quantos, mas há muitos mesmo, havia uma loja ali numa rua estreitinha que se chamava a peluqueria. Não era sítio onde se cortasse o cabelo, mas o dono, talvez porque era espanhol, tinha chamado à humilde loja peluqueria. E assim era para que todos vissem e lessem com os seus olhos. Ou melhor, para aqueles que, à época, conseguiam ler. Não eram muitos, mas alguns havia que percebiam as letras e a forma como estas se ordenavam nas palavras e nas frases e nos textos.

AS ONDAS

Arrasada pelas notícias repetidas, caluniosas, degradantes e falsas que saíram nos últimos dias nos jornais acerca dela e do seu desempenho nas funções políticas que desempenhava, Linda refugiou-se no gabinete e olhou vezes sem conta para os excertos dos jornais que a ela diziam respeito. Era tudo tão pesado e agressivo. Uma agressividade nas figuras a cores que ganhava uma cor encarnada como se de sangue se tratasse. Nem um entre todos os jornais continha uma única palavra em que se referissem as suas qualidades, os seus gestos, a sua obra feita.

VAZIO

Os pensamentos dos homens e das mulheres estão vazios. Não há nada nas caixas nem nas casas onde vivem as pessoas. O mundo é intermitente. Na escolha das palavras são os homens e as mulheres que falham ou acertam, são esses homens e essas mulheres que preenchem os espaços vazios das palavras. São as palavras que preenchem os lugares vazios das pessoas.

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