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A PERUCA

Há muitos anos atrás, dezenas deles, não sei bem quantos, mas há muitos mesmo, havia uma loja ali numa rua estreitinha que se chamava a peluqueria. Não era sítio onde se cortasse o cabelo, mas o dono, talvez porque era espanhol, tinha chamado à humilde loja peluqueria. E assim era para que todos vissem e lessem com os seus olhos. Ou melhor, para aqueles que, à época, conseguiam ler. Não eram muitos, mas alguns havia que percebiam as letras e a forma como estas se ordenavam nas palavras e nas frases e nos textos.

AS ONDAS

Arrasada pelas notícias repetidas, caluniosas, degradantes e falsas que saíram nos últimos dias nos jornais acerca dela e do seu desempenho nas funções políticas que desempenhava, Linda refugiou-se no gabinete e olhou vezes sem conta para os excertos dos jornais que a ela diziam respeito. Era tudo tão pesado e agressivo. Uma agressividade nas figuras a cores que ganhava uma cor encarnada como se de sangue se tratasse. Nem um entre todos os jornais continha uma única palavra em que se referissem as suas qualidades, os seus gestos, a sua obra feita.

VAZIO

Os pensamentos dos homens e das mulheres estão vazios. Não há nada nas caixas nem nas casas onde vivem as pessoas. O mundo é intermitente. Na escolha das palavras são os homens e as mulheres que falham ou acertam, são esses homens e essas mulheres que preenchem os espaços vazios das palavras. São as palavras que preenchem os lugares vazios das pessoas.

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Cinquenta e duas semanas, cinquenta e dois textos escritos nas linhas de uma folha em branco. Uma vez a descoberta do Myanmar, um país, os caminhos entre lagos e montanhas, entre grutas e templos. Outra vez, os dias a nascer no cimo do monte Ramelau, de onde se vê a passagem de multidões desconhecidas, todas as pessoas na sua singularidade e a tentativa de as desenhar em letras, onde houve sempre algo que nasceu nas curtas frases.

NEVOEIRO

Na senda dos campos desconhecidos, há um inverno que se prolonga. Nos altos das montanhas, sopra o vento frio e cavernoso e as árvores acomodam-se  deixando gelar as folhas. As árvores não se avistam pois o nevoeiro cobre todo o espaço entre si e as músicas que se ouvem. Não são êxitos pop, mas sim o leve assobiar das árvores quando tocam o vento e se apaixonam pelas folhas. Num dia de nevoeiro, tudo parece mágico como se não houvesse uma linha de horizonte definida.

AS LÂMINAS DA BARBEARIA DA VILA

A vila não era muito grande. Ao todo, devia ter aí umas 600 pessoas a viver lá em permanência. Havia muitas casas vazias, de pessoas que morreram, casas sozinhas deixadas por pessoas que foram viver para outras paragens e casas quase a cair, de pessoas que se esqueceram que, naquele lugar, havia uma casa ou mesmo de pessoas que já não tinham ninguém que se lembrasse que lá havia uma casa.

ERA GUARDA-REDES

Isto aconteceu há alguns anos atrás. Liceu de Beja, por volta das 08:30 da manhã. O toque de entrada ecoava em todo o liceu, emanado das estridentes campainhas que marcavam a hora de entrar na sala. Agitada, a turma de 9º ano rodeava a porta, à espera que chegasse o professor. Iam ter matemática durante 90 minutos. Rui não se interessava muito por disciplina nenhuma. Era um aluno mediano em todas as disciplinas e nunca tinha excelentes notas nem nunca baixava dos cinquenta por cento. Tinha, porém, uma paixão que não deixava nunca de o acompanhar.

A IDADE DO BRONZE

Dois amigos conversavam no meio da rua como se fossem desconhecidos de longa data. O nome de um era igual ao nome do outro. Eram ambos José e não se conheciam por outro nome a não ser Zé. O Zé dizia ao Zé que tinha visto um programa na televisão sobre a Idade do Bronze e o Zé respondia, a perguntar, com ar espantado, se se referia à Idade do Bronze que era antes da Idade do Ferro e depois da Idade da Pedra. Zé respondia que sim. Tinha sido um documentário interessante, mas Zé não percebia muito do assunto.

PALAVRAS CRUZADAS

Nunca fui pessoa de completar um jogo completo de palavras cruzadas de uma assentada. Tentei algumas vezes, umas com sucesso, outras de forma infrutífera, chegar o mais longe possível na descoberta das letras e das palavras, a partir dos seus significados dados nas pistas. É tudo uma questão de semântica, dir-se-ia. E é com essa semântica que se procura chegar aos sentidos das palavras e ver que letra se encaixa naquele quadrado particular. É preciso que se adeque ao vertical e ao horizontal.

A CAIXA

A Carlota era filha única e tinha uma caixa guardada debaixo da cama. Carlota não contava a ninguém o que guardava na caixa. Era de madeira lacada e tinha um cadeado. Só Carlota tinha a chave e só Carlota conhecia os segredos da sua caixa. Não era uma caixa de Pandora nem guardaria todos os males do mundo. Era uma simples caixa onde se guardavam os segredos de infância, as recordações da adolescência e os sonhos do futuro que se esperavam melhores ainda do que o planeado.

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