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UMA PAUSA

Faltavam poucos minutos para as cinco horas da tarde e estavam várias pessoas na paragem de autocarro à espera do dito cujo. Um homem, de gabardine cinzenta escura, debotada nas mangas e no colarinho. As calças, de sarja, eram também cinzentas e estavam vincadas mas não se diferenciavam de todas as outras que estavam ao seu lado. Ninguém falava com ninguém. Era essa a regra. Não se conheciam e não se queriam conhecer. Para quê trocar palavras com pessoas que não voltariam a ver. Para que gastar saliva. Cada um tinha os auriculares postos e ouvia as coisas que ouvia.

É FEITIO…

Há coisas que o vento deixa passar e outras coisas que a tempestade segura, agarrando-se com ventos e águas. Não é defeito, é feitio. Há pessoas que são em si uma tempestade, um turbilhão de movimentos e uma tempestade que se agita em volta de si próprio. Não seguindo todas o mesmo princípio, tornam-se estas tempestades em pequenos copos de água. Não é defeito, é feitio.

VIAGEM DE BARCO

O mar parecia um espelho. Calmo, plano, sem qualquer tipo de ondulação ou toque de brisa. Ao olhá-lo via-se o céu e a nossa cara refletida como se fossemos um Narciso apaixonado por si próprio. Nesse mar calmo, apetecia-me navegar além das ilhas verdes e rochosas que se plantavam, além da minha imaginação e navegar dentro dela, como se eu próprio estivesse na minha cabeça e a navegação fosse feita à vista, dentro dela, sem astrolábios ou materiais de navegação.

A PROFESSORA NOVA

Chegava o mês de outubro e era altura de os moços e as moças voltarem à escola e àquela azáfama dos cadernos e dos livros novos que haviam de chegar à papelaria e depois seriam transportados para a Escola que ficava lá no meio do monte. Os moços e as moças da aldeia tinham passado mais ou menos três meses de férias. Nesta altura as férias de verão eram longas e longas e quando estavam a chegar ao fim, parecia que tinham começado no dia anterior.

CHARRUAS

Eram dois irmãos, o Sertório e o Viriato. O Sertório fazia musculação e o Viriato tinha uma charrua e um par de bestas. Não moravam no mesmo sítio nem se conheciam. Tinham sido separados à nascença e eram muito diferentes, apesar de gémeos homozigóticos. Chamavam-se assim por causa dos antigos, esses generais pré-romanos. Os pais tinham tentado cuidar dos dois irmãos mas as circunstâncias da vida levaram todos a caminhos diferentes. Nem um se voltaria a encontrar, até ao dia em que aqui se relata nesta breve crónica.

O GELADO

Ice cream… I scream… Era um dia daqueles tão quentes mas tão quentes que até as Fénix depois de congeladas entravam em combustão, fechada dentro de uma arca congeladora, onde o gelo evaporava com o calor, tudo derretia. Apetecia-me tanto um gelado fresquinho, um mesmo uma garrafa de água. Vou a caminhar, debaixo de uma torreira de quarenta e tal graus, tenho gotas de suor a cair pelo corpo, as minhas miragens transformam-se todas em gelados fresquinhos de uma qualquer marca que não menciono para não fazer publicidade, mas apetece-me um ice cream ou uma garrafa de água fresca.

34 COM A 7.ª

Da minha janela de casa vê-se o pátio interior de um prédio onde vive muita gente cujos rostos não me são familiares. Se algum dia os vi, não me recordo deles. Se os voltar a ver, não me recordarei da última vez em que os vi. Ter vizinhos num prédio em que o convívio se restringe a um olá como está no elevador quando é caso disso torna-nos um número de apartamento e uma caixa de correio. Somos isso.

O CANTAR DO GALO

Em Manhattan os galos não cantam nem às 4 nem às cinco da manhã. Não é por ser a cidade que nunca dorme, mas porque, parece-me, há poucos galos na cidade americana que vivam no meio daquela encruzilhada urbana. Jardins nos topos dos prédios há alguns, já os vi quando subi ao prédio mais alto da cidade. Vi, a partir do Rockefeller Center, alguns jardins no topo de edifícios mais baixos. Não vi, até hoje, nenhum galinheiro. Espero ainda ter essa surpresa. Espero ainda ouvir o som dos galos a despertar a cidade que não dorme. Embora isso seja, no fundo, um paradoxo. Sei-o.

MIGAS

Isto, se tudo correr bem, aterrei há poucas horas em Lisboa, volto a pisar o solo da capital, no Aeroporto Humberto Delgado. A longa caminhada entre a saída do avião e a recolha das bagagens faz-me pensar, passo após passo, que estou a pisar território nacional mais uma vez, durante alguns dias apenas. Recordam-me estes passos a primeira vez que saí do país. Corria o ano de 1996 e fui passar oito dias a Londres, precisamente a um intercâmbio sobre a União Europeia com jovens de todos os países. Recorda-me esta viagem os bons momentos que foram e a nova experiência que foi para mim.

UM CAMPEONATO DIFERENTE

Acabei de beber um café. Os nervos não me deixam agarrar na chávena com firmeza e tremo… o estômago parece saltar e dar voltas. Mais rapidamente do que a montanha russa, ando também eu às voltas. A chávena palpita-me na mão e tudo parece surreal. Tudo, no fundo, é surreal. Ando há um mês a ver jogos, umas vezes vestido a rigor, outras vezes nem tanto, assisto a ver só pelo prazer de ver e pela curiosidade de me sentir parte de um continente que neste momento vibra, que se une, que se afasta, que diz bem e que diz muito mal, que pragueja, que ri, que chora. As emoções, multiplicadas dentro de cada uma das pessoas que diz presente, são um turbilhão de energia que a Europa precisa, da alegria não sancionada.

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