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Carta a uma girafa

Querida Girafa,

Ando há meses pensando em como te escrever estas palavras. Na minha ideia, é preciso coragem para, finalmente, te dirigir breves linhas que sei que talvez nem vás ler. Porém, é importante e obrigatório que as escreva.

Certamente sou alguém absolutamente desconhecido para ti. Nunca tive a coragem de te dirigir a palavras certas. E por isso me calo cada vez que passo por ti e cada vez que nos cruzamos. E por isso desvio o olhar. Há algo em ti que fez nascer algo em mim e me ajudou a ver a savana de outra forma. Bem, ajudou-me a abstrair do capim.

 

2088

Este é o ano de 2088. Há coisa de 20 anos, o mundo mudou. As razões porque mudou não se sabe bem ao certo, nem nunca se saberá. A mudança foi tão radical que praticamente toda a água se evaporou e desapareceu.

Parece um filme de ficção científica já tantas vezes repetido. Uma história que tantos previram já. Daria um bom romance ou um grande filme.

A longa história de uma centopeia

Centelha era uma centopeia. Chamavam-lhe assim vá-se-lá saber porquê. Mas era uma centopeia boazinha que mexia cinquenta pés de uma vez e os outros cinquenta de outra vez. Claro que intercalados, ou dava mau resultado e a centopeia cairia e não se conseguia mexer.

As palavras

Em início de ano e em jeito de conclusão do ano que terminou, interrompendo as falas dos animais e as longas histórias a que já me acostumaram e vos acostumaram, achei proveitoso fazer um momento de reflexão. E essa reflexão passa pelas ideias, pelos sentimentos, pelas sensações, pelas imagens e, concretizando-se, pelas palavras que escrevo e sempre partilho convosco. Há quase seis anos que partilho palavras semanalmente. São neste momento 298 artigos... 298 semanas com ideias novas, com temas tão diferentes quanto semelhantes, tão complexos quanto singelos, tão inovadores como banais.

A ovelha que falava línguas

Há muitos, muitos, mas mesmo muitos anos, viveu uma ovelha nas serranias do Caldeirão, ainda no concelho de Almodôvar.

A cobra que sonhava ter pernas

Nascida nos desertos de África, Malandrinha, era uma cobra grande e vistosa. Era um réptil cheia de características boas, coisa que a diferenciava de todas as outras cobras.

No deserto onde vivia, as cobras que faziam parte do seu habitat natural todas tinham péssima reputação e eram todas muito más.

Mesmo entre si abundava a maldade e tentavam todas prejudicar-se umas às outras.

Se fossem todas postas dentro de um saco ou dentro de um balde, talvez não saísse de lá nenhuma viva, pois certamente se teriam aniquilado todas, uma a uma.

A coletora de segredos

Respinga era um ser que, como o seu nome diz, não parava sossegada.

Respinga acordava por volta das cinco e meia da manhã e adormecia às 11:30 ou 23:30. Praticamente, nunca dormia. Respinga era uma pulga! Isso mesmo que ouviu, ou leu, Respinga, pulga de nascença, é a nossa personagem desta semana.

Nascida nas ovas das pernas, fruto de outra pulga, por acaso de uma ovelha, Respinga desde cedo se começou a diferenciar de todas as restantes irmãs.

O último voo da poupa

A poupa poupava muito dinheiro em viajar de autocarro. Mesmo em longas distâncias, preferia o transporte mais barato. Não tinha nada a ver com o seu nome, embora, claro, se é poupa, poupa.

Tinha mesmo de poupar esta poupa pois tinha um ninho cheio de ovos e uma prole tão mais numerosa quanto o número de ovos que tinha no ninho.

Embora poupada, havia sempre despesas que levavam a que a pobre gastasse dinheiro. Não me vou referir à forma escatológica como construíra o seu ninho.

A fuga do peru

Dia 26 de novembro do corrente, antecipando a grande festividade do dia do peru nos Estados Unidos, Macário, um peru grande e encorpado que vivia no meio desse país, antecipou um acontecimento que o deixaria em sérios problemas, se não, questão de vida ou de morte. Neste caso sabemos que seria mais de morte.

Há uma tradição aqui deste lado do Atlântico de sacrificar um animal que será barbaramente degustado por um número enorme de comensais. Trata-se do Dia de Ação de Graças. Quem não acha muita graça são os perus. Neste caso Macário não achava mesmo piada nenhuma.

O elefante que conhecia tudo

Seu nome próprio era elefante embora os amigos se dirigissem a ele como ele. Vivia em África e nunca tinha vindo ao Alentejo. Podia até já ter vindo mas não era o caso.

A família era numerosa. Havia elefantes grande e havia elefantes pequenos. Havia primos e tios e afilhados e coisa que tal.

Elefante tinha uma vida cheia. Já tinha vivido muito e nunca se esquecia de nada. Daí terá surgido uma famosa expressão de memória de elefante. Era mesmo assim este ele.

Nem doente, nos seus últimos dias, se esquecia de nada.

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